Um casamento caboclo (e uma noiva em apuros)

O colega Marcelo Hübel lançou recentemente “Pioneiros”, livro que contém, principalmente, relatos históricos feitos a partir de manuscritos de Zeferina Fragoso. Um desses relatos, o mais curioso e impressionante deles, trata do casamento de seus pais, Virgínio Soares Fragoso e Francisca Pereira de Oliveira, em 1889. A história do casamento  é descrita em detalhes, revelando muito sobre os costumes da época (só ela já valeria o livro). Por aqui, vamos nos ater a essa informação: Virgínio Soares Fragoso tinha 60 anos e sua esposa 16.

Alguém pode dizer que “era comum na época” casamentos com tanta diferença de idade. Não digo que fossem comuns, mas é verdade que vez ou outra acontecia. Por outro lado, estavam longe de ser rotineiros.  Tanto é assim que, de outra forma, não haveria necessidade de esconder da noiva que o seu esposo prometido era, vamos dizer, um ancião.  E foi exatamente isso o que aconteceu, com a família de Virgínio e Francisca escondendo dela a identidade do noivo, possivelmente temendo uma reação adversa – uma recusa ou coisa pior.

E o relato de Zeferina, descrito por Hübel, culmina com a revelação da identidade do noivo apenas durante a cerimônia na Prefeitura Municipal.  Francisca Pereira de Oliveira parece ter ficado aturdida com a revelação, provavelmente não esperando que seu esposo fosse alguém de barba e cabelos brancos. É pouco provável que, espontaneamente, viesse a escolher Virgínio. Por outro lado, o espanto dela pela descoberta não a fez ter alguma reação. Obediente à família que cuidara dela desde pequena, ela aceitou a decisão e o casamento de fato aconteceu.

A sequência da história dá a entender que, apesar das diferenças, o casal conseguiu levar uma vida até feliz, diante das possibilidades, e que culminou com o nascimento de dois filhos.

Relação com o casamento de Benedicto Bail

O casamento de Benedicto Bail e Anna Maria Neppel foi o primeiro casamento bávaro/boêmio de São Bento. Por ser assim, e também pela história digna de Romeu e Julieta por trás, tornou-se bastante conhecido e merecedor de relatos da família Zipperer a este respeito. Foi graças a esses relatos escritos, inclusive, que tivemos acesso a uma série de costumes pra lá de curiosos que envolviam os casamentos da época, e a partir dele podemos conjecturar como foram os demais no período. Não parece ter havido relato de outro casamento da época com informações tão preciosas.

O casamento de Virgínio, ainda que não tenha sido o primeiro, representa o único casamento “caboclo” dos primórdios de São Bento com descrição conhecida.  Os brasileiros, pouco conhecidos, quando não ignorados, na história da cidade, passam a ser melhor identificados através da boa ideia que teve Zeferina ao decidir deixar um registro, não só do casamento, mas de tudo o mais que envolvia a vida desses paranaenses ao chegar na região.

É singular que os dois únicos casamentos antigos registrados em São Bento, um para cada etnia, tenham histórias pitorescas por trás. Curiosa também é a forma com que cada noiva reagiu diante das circunstâncias que precisou enfrentar. Anna Maria Neppel precisou enfrentar a resistência dos pais para se casar com Benedicto Bail – um romance começado ainda na Boêmia e sempre contrariado. Já em solo brasileiro, os dois decidiram, ao que tudo indica, passar por cima de tudo.

Em suma: Anna Maria Neppel desobedeceu aos pais e manteve firme a sua decisão de casar com Benedict, sujeitando-se inclusive a uma cerimônia sem a presença deles. Não era, e estava longe de ser, um comportamento comum para a época, e chega inclusive a espantar que, num ambiente de grande respeito familiar como o que imperava entre os imigrantes, tenha havido tamanha participação da sociedade local para que o intento de Anna Maria tivesse sucesso.

Anna Maria Neppel levou a sua desobediência ao extremo.

Francisca Pereira de Oliveira fez o contrário: levou a sua obediência ao extremo. Menina órfã, foi criada pelos tios, e talvez se sentisse de certa forma devedora, além de, muito provavelmente, os ter em grande estima. E isso a ponto de se sujeitar a um casamento com quem nem de longe lhe passaria pela cabeça se envolver – ainda que o tempo tenha trazido alguma comodidade.

São situações reveladoras, em grande parte, da moral da época, e que merecem ser aprofundados em trabalhos futuros, inclusive na Academia, que muito pouco tem produzido sobre a história da cidade.

Em breve comentarei mais sobre o livro “Pioneiros”.

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