Os imigrantes veteranos de guerra

Temos ciência através do cronista Josef Zipperer (1954) que, nas primeiras décadas, existiu em São Bento uma associação de soldados veteranos da Prússia, tida como “muito bem organizada”. Dela, evidentemente, só podiam fazer parte ex-combatentes prussianos, sendo que a maioria havia lutado na Guerra dos Ducados, em 1864, na Guerra Austro-Prussiana, em 1866, e na Guerra Franco-Prussiana, em 1870, – três das guerras da unificação germânica. Não conhecemos o nome da maioria desses veteranos, apenas os de Rudolf Klaumann, Heinrich Hussmann, Adolph Langer e Josef Heinrich, o “Henrique Grande” citado por Zipperer.

Diz o cronista que Heinrich, que era pedreiro de ofício, já não ouvia muito bem por conta dos tiros de canhão durante a guerra. Os relatos de Heinrich sobre os combates costumavam assustar as crianças, sobretudo quando falava sobre os franceses zuavos, “que não eram cristãos como nós, mas sim pagãos, venerando como Deus a macacos”.

Da Guerra Franco-Prussiana, os ex-combatentes de São Bento festejam o dia da batalha de Sedan, que decidiu o conflito a favor dos prussianos. A batalha foi travada no dia 1º de setembro, e no dia seguinte os franceses se renderam. Era justamente no dia 2 de setembro que os soldados comemoravam em São Bento.

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Batalha de Sedan: prussianos comemoravam a rendição dos franceses em 1870

Neste dia, eles promoviam um desfile pelas ruas da cidade, repleto de bandeiras tremulando. Os combatentes traziam ao peito as condecorações que haviam recebido por ocasião das guerras em que participaram. A Banda Augustin, tida como o primeiro conjunto musical de São Bento, puxava o desfile com suas marchas, reforçada pelos bumbos e tambores de Rodolpho Hoffmann e seu filho Oswaldo. Pela menção a esses nomes feita por Josef Zipperer, imagina-se que esses desfiles tenham acontecido próximo ou exatamente na década de 1890. Afinal, Oswaldo Hoffmann nasceu por volta de 1876 e, por mais mocinho que fosse, precisava ter certa idade para poder acompanhar o pai na banda.

Aliás, chama a atenção que essa solenidade dos prussianos fosse animada pelos “austríacos” da Banda Augustin. Isso porque a Guerra Austro-Prussiana ocorrida em 1866 colocou ambos em lados opostos. Por mais que já tivessem se passado duas décadas, os relatos da época fazem crer que ainda persistiam certas animosidades entre as etnias em São Bento. Talvez os prussianos, se pudessem, escolheriam uma banda própria, mas é possível que os Augustin fossem os únicos na cidade. A inclusão da família Hoffmann é sugestiva, pois esses não eram boêmios, e bem poderia ser que fossem prussianos. Talvez fossem eles os representantes da etnia em meio aos músicos austríacos – que, de certo, também não viam mal em um trabalho a mais.

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Banda Augustin: austríacos animando os prussianos 

Diz Zipperer (1954) que as crianças acompanhavam toda a marcha, “admirando aqueles homens, verdadeiros heróis, que já tinham enfrentado a morte, frente à grande chuva de balas”. Esse dia festivo era finalizado com um “monumental baile”, em salão não mencionado.

Todas essas festividades acabaram por despertar o ciúme dos boêmios de São Bento. Também havia entre eles veteranos das mesmas guerras, além de outros que estiveram na Itália sob o comando do marechal-de-campo Josef Wenzel Radetzky von Radetz, tido como o mais importante militar austríaco da primeira metade do século XIX. Infelizmente Zipperer não cita nomes, mas sabemos que, entre esses, estava o imigrante Georg Gschwendtner, que havia combatido na Itália, contra os franceses, em 1858/1859 sob o comando de Radetzky (VASCONCELLOS, 1991), no conflito que ficou conhecido como a Segunda Guerra de Independência Italiana.

Entre os militares boêmios, também estava Jakob Treml, que foi dragão do imperador, ou seja, um soldado que se deslocava a cavalo, e usando armamento pesado. Ele participou, em 1866, da batalha de Königgrätz, ou de Sadowa, ocorrida no norte da Boêmia e que decidiu a Guerra Austro-Prussiana a favor da Prússia.

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Batalha de Königgrätz: imigrante Jakob Treml participou do conflito que definiu a Guerra Austro-Prussiana a favor dos prussianos em 1866

Sabemos ainda que o próprio Josef Zipperer foi soldado na Guerra Austro-Prussiana, também conhecida como Guerra das Sete Semanas. Essa guerra parece ter sido do especial interesse de seu filho Jorge, que, ainda na juventude, leu livros sobre o conflito. Pelos relatos feitos por Josef Zipperer, sabemos que houve também um imigrante apelidado de “Henriquezinho”, ou “pequeno Henrique”, que havia sido sargento do exército austríaco, mas não obtivemos sucesso na identificação desse personagem. O seu apelido vinha pela comparação com o “Henrique Grande”, o já citado Josef Heinrich, que havia lutado pelos prussianos. Desconhece-se o nome de outros ex-combatentes austríacos.

De toda forma, os austríacos decidiram criar também uma sociedade para rivalizar com a dos prussianos, e assim foi feita a “Oesterreich-Ungarischer Hilfsverband”, também chamada de “Sociedade Auxiliadora Austro-húngara”, “União Beneficente Austro-húngara” e “Liga Austro-húngara”, conforme o historiador e o tradutor. Parece certo que dela não faziam parte apenas os veteranos, mas todos os imigrantes austríacos que assim desejassem. O próprio presidente, Frederico Fendrich, não parece ter lutado em nenhuma guerra. Boa parte dos seus membros parecem ter sido pacatos colonos.

A imagem pode conter: 13 pessoas, pessoas em pé

A Sociedade Auxiliadora Austro-húngara: veteranos eram em número reduzido 

É curioso que uma das lideranças dessa sociedade austríaca fosse o silesiano Johann Hoffmann. Em verdade, há uma grande confusão geopolítica envolvendo a Silésia, que ora aparece como parte do Império Austro-húngaro e ora da Prússia. Pfeiffer (1997), ao falar sobre o imigrante silesiano Adolph Langer, diz que sua aldeia natal pertencia ao Império Austro-húngaro, mas já em seguida relata a participação dele na guerra Franco-Prussiana – ou seja, lutando pelos prussianos.

Situações curiosas como essas podiam acontecer do outro lado da fronteira também, já que Josef Heinrich, embora bávaro e, como tal, soldado prussiano, tinha sua família, inclusive a esposa, como natural da Boêmia, ou seja, da Áustria. É preciso que se diga que antes de 1866 as duas potências estavam do mesmo lado nos conflitos existentes.

Com a nova sociedade, os austríacos também passaram a promover desfiles pelas ruas da cidade. Escolheram como dia o natalício do imperador Franz Joseph, 18 de agosto. Neste dia, assim como os prussianos, os veteranos de guerra exibiam garbosamente as suas condecorações enquanto caminhavam pela região central de São Bento.

É uma pena que não exista nenhum registro fotográfico desses desfiles, nem de austríacos e nem de prussianos. Em verdade, a documentação sobre essas duas sociedades é bem escassa, sendo que da Sociedade dos Veteranos, ou seja, a dos prussianos, só existe a citação de Zipperer e outra em um protocolo de recepção, em 1898, a um cônsul austríaco ou alemão que nunca veio. Na ocasião, o representante da sociedade foi Heinrich Hussmann. Não se sabe até quando foram as atividades desta sociedade, que deve ter encerrado as atividades ao longo da década seguinte.

A dos austríacos ainda existia na década de 10, mas seguramente não mais em 1923. E as guerras de que participaram só continuaram a ser lembradas nas memórias e nas conversas com seus velhos veteranos.

4 pensamentos sobre “Os imigrantes veteranos de guerra

  1. Sobre a Silésia, parece-me pelo que pude apurar, a Alta Silésia era parte da Prússia, de onde inclusive imigrou o meu Bisavô Johann Wloch e família, que hoje é parte integrante da Polonia. E tinha a Baixa Silesia que provavelmente fazia parte do Império Austro-Hungaro. Embora isso parece meio nebuloso…

  2. Pois é, Humberto, tenho encontrado informações contraditórias sobre a Silésia… mesmo imigrantes da Baixa Silésia parecem ter lutado pela Prússia.

  3. Fantástico o texto! Parabéns! Instigante de mais pesquisas. Fiquei muito curiosa!

  4. Boa noite
    Estou procurando a certidao de nascimento do meu bisavô…PORSCH
    Nasceu na alemanha e veio para o brasil
    Na alemanha se chamava Johanes Porsch 25/09/1904
    e no brasil casou com o nome de João Porsch
    tem alguma informação?

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