Quem eram os alemães de São Bento?

A colonização de São Bento do Sul se deu, majoritariamente, por imigrantes de origem germânica e polonesa, aos quais se somou um significativo contingente de paranaenses que já viviam na região. O elemento germânico vinha de diferentes estados na Europa, sendo que alguns deles não pertencem atualmente à Alemanha. A maior parte dos imigrantes católicos vinha da Boêmia, que na época pertencia ao Império Austro-húngaro. Esses imigrantes eram considerados austríacos e, pouco antes de imigrar, haviam inclusive lutado contra a Prússia, que corresponde em parte à Alemanha de hoje. Ou seja, apesar de cultivarem certos traços culturais em comum, havia até mesmo uma rivalidade entre grupos germânicos distintos.

Os boêmios habitavam o seu território há vários séculos. Os da floresta boêmia chegaram até lá vindos da Baviera, e os do norte vindos da Saxônia, ambos estados alemães. Ao se mudarem para a Boêmia, mantiveram muitos costumes, mas também receberam outras influências, como a dos tchecos. Famílias boêmias como os Fendrich e os Zipperer possuem não apenas germânicos entre os seus antepassados, mas também tchecos. É, de fato, à República Tcheca que a Boêmia pertence em nossos dias, e somente a cidadania tcheca – não a alemã e nem a austríaca – é que, com dificuldades, pode ser pleiteada pelos descendentes dessas famílias.

Se os boêmios predominavam entre os imigrantes católicos de São Bento, os pomeranos eram quem dominava entre os luteranos. À época da imigração, a Pomerânia fazia parte da Prússia. Em consequência da Segunda Guerra Mundial, a maior parte do seu território foi anexada à Polônia. É, de fato, do lado hoje polonês da Pomerânia que provinham as famílias pomeranas de São Bento. É um caso parecido com o dos boêmios, pois, além de não possuírem mais um Estado, os germânicos da Pomerânia também se misturaram geneticamente aos eslavos, e não são exatamente o que se poderia chamar de “alemães” – apesar da fama de Pomerode.

Houve também muitos imigrantes da Silésia, dividida atualmente entre a República Tcheca e a Polônia, com apenas uma pequena parte na Alemanha. Mas também houve os que vieram de territórios que, em nossos dias, pertencem à Alemanha, como a Baviera, a Saxônia, a Vestfália, a Renânia, a Turíngia, Brandenburgo, Mecklenburgo e Hamburgo. Esses eram, no entanto, minoria entre os imigrantes da cidade. Também em menor número veio gente da Alsácia, hoje na França, do Tirol, dividido entre Áustria e a Itália, e mesmo da Dinamarca. Todos esses podem ser vistos hoje simplesmente como “alemães” por seus descendentes, mas uma pesquisa mais aprofundada dos antepassados pode revelar uma origem um pouco diversa.

Talvez seja a atual Alemanha o lugar que melhor incorpora certo tipo de cultura, típica de cidades como São Bento, mas em grande parte dos casos a correspondência não se dá do ponto de vista geográfico, pois os imigrantes vieram de territórios hoje pertencentes a outros países da Europa. Não se trata de mera “sutileza” da história, pois o conhecimento dessas especificidades pode revelar aquilo que temos de original. Pouca gente sabe, por exemplo, que São Bento é a cidade brasileira que mais recebeu imigrantes da Boêmia. Particularidades como essa se perdem quando se fala genericamente em “alemães”.  Por isso, vale o resgate.

7 pensamentos sobre “Quem eram os alemães de São Bento?

  1. Caro amigo Henrique Fendrich. Parabéns novamente, por ter sintetizado tão bem “Quem eram os alemães de São Bento? ”
    Eu continuo na genealogia da família dos Jönk, Randig e Diener, e como você sabe.Aliás o filho de João Jönk com Margaretha Diener, que foi batizado com o nome de Wigando Jönk, que nasceu em 04/10/1884, tive uma informação que faleceu muito criança. Por acaso vc já encontrou nos registros da igreja católica o seu registro de falecimento ? Abraço

  2. Henrique, os meus vieram (Heinrich Marschalk) vieram de Elsenthal, Prussía Ocidental. Sabe me dizer onde fica atualmente?

  3. Realmente, aprofundar as pesquisas é muito interessante, pois mostram dados geralmente desapercebidos, especialmente sobre “outras culturas” que permeiam nossas origens.
    A propósito, logo acima há uma pergunta sobre onde fica hoje a região que no século 19 era a Prussia Ocidental: trata-se da região ao redor da cidade de Gdańsk (ou Ganzig, em alemão), principalmente no lado ocidental do rio Wisła (Vístula, em português). Ficou na história como o Corredor Polonês, saída para o Mar Báltico pertencente à Polônia na sua restauração após a primeira Guerra Mundial. Esta região estava sob o domínio da Prussia de 1776 até o final da primeira Guerra Mundial; na época da emigração para São Bento, era povoada por cerca de 60 porcento de pessoas de idioma alemão e de 40 porcento de idioma polonês. Vieram a São Bento famílias tanto de um quanto do outro idioma. Mas o que é ainda menos conhecido, é que essa região é a terra de uma etnia eslava minoritária, com língua e cultura diferentes da polonesa, os Cachubios (Kaszuky, em polonês). Pois bem, ao aprofundar a pesquisa sobre meus antepassados, os Neubauer, ficou evidente que estes tem laços também com esta etnia!

  4. Henrique, sou neta de Bernardo Isfort, o alemão que morou na praça central de São Bento do Sul e tinha uma cervejaria na parte térrea da casa. Essa construção, não sei se ainda existe, tinha uma palmeira na frente, que crescia através do telhado.
    Contou minha mãe que em determinado dia, meu avô se vangloriou de que na Alemanha as salsichas eram extremamente grandes e desafiou a encomendar as tais salsichas gigantes e oferecer aos presentes para comprovar sua afirmação. Então, ele confeccionou uma salsicha bem grande e empacotou e selou e endereçou para ele mesmo. No dia marcado, o pacote chegou e todos ficaram admirados com o tamanho da salsicha! Este fato está narrado em um livro com a história de São Bento do Sul, que infelizmente, com a morte de minha mãe, acabei perdendo. Mas, a história pode ser confirmada pelos mais antigos moradores da cidade.

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