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Posts Tagged ‘1897’

Segue coluna publicada no Jornal Evolução de 21.09.2012.

O terror no aniversário da cidade

Pouco mais de três linhas. Esse foi o espaço que o aniversário de 25 anos de São Bento do Sul mereceu no jornal da época. Havia coisas demais acontecendo na cidade naquele ano de 1898. A notícia principal daquele dia foi a acusação de que alguns soldados estariam promovendo arruaças e agressões contra cidadãos de bem. E o Dr. Philipp Maria Wolff não perdeu a oportunidade de insinuar no jornal que, ao invés de causar desordens em São Bento, esses soldados estariam melhor empregados se estivessem em Joinville tomando conta de Joaquim da Silva Dias – o homem que foi preso acusado de mandar matar o presidente da Câmara, Alberto Malschitzky, em meio aos terríveis acontecimentos do ano anterior.

Eu o moralizei bem”

Joaquim da Silva Dias havia sido promotor público em Campo Alegre. A maioria das testemunhas ouvidas no caso dava a entender que era ele o responsável pela morte de Malschitzky. E por qual motivo? Um telegrama. Malschitzky havia enviado um telegrama ao governador Hercílio Luz pedindo a exoneração de Dias do seu cargo de promotor, “a bem da ordem e da moralidade”.

Foi o suficiente. “Alemão ordinário de merda”, teria dito – é assim que está no jornal. “Agora eu o moralizei bem”, também teria dito após o crime, segundo uma das testemunhas. Dizem elas também que Dias pretendia fazer uma espécie de golpe de Estado, derrubando a prefeitura de São Bento, ainda que isso custasse muitas mortes.

E o caso envolvia gente graúda na região, como Francisco Bueno Franco, primeiro prefeito de São Bento e depois de Campo Alegre. Fala-se ainda num banco de 15 jagunços que trabalhariam para Dias. Nada sei, nada sei. Sei apenas que, além de terríveis, os episódios daquele tempo também tiveram os seus momentos cômicos. 

Um cavalo na cadeia

Uma das testemunhas ouvidas foi Serapião Marcondes da Fonseca. Revelou todos os supostos planos de Dias, mas também se complicou no depoimento, e por isso recebeu ordem de prisão. Ao ouvir isso, Serapião deu no pé. Fugiu pela janela. Um grupo de soldados foi até a casa dele procurá-lo. Chegando lá, encontraram outro homem e pediram que dissesse onde estava Serapião. “Eu não sei, ele saiu cedinho para ir nessa audiência. Pelo menos foi o que ele disse pra família”, explicou o homem.

Por via das dúvidas, levaram o homem até o delegado. Perguntaram a ele então se era Juiz Distrital. “Se sou o quê? Não, eu sou hoteleiro na Lapa! Vim aqui apenas tratar de negócios!”. Em seguida, foi posto em liberdade. E nada de Serapião.

Foram então procurar na casa do futuro prefeito Manoel Tavares, inimigo de Dias, pra ver se não estava escondendo Serapião por lá, a fim de se beneficiar com suas informações. Não estava. Foram então ao palacete do Dr. Wolff. Nada encontraram também. Às 19h, voltaram para a casa de Serapião e cercaram a estrebaria. Se ele aparecesse por lá atrás de algum animal, seria pego. Ficaram lá até às 6h da manhã, e nada do homem aparecer. Não tendo mais o que fazer, os soldados levaram preso então o cavalo de Serapião, que ficou amarrado no quartel em São Bento. Tudo leva a crer que ele não tenha prestado depoimento.

E mais não digo por hoje, mas outro dia 1897 voltará a esta coluna. 

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Coluna publicada no Jornal Evolução de 14.09.2012.

Entre sete e oito horas daquele sábado, 21 de agosto de 1897, o cachorro de Georg Dums, imigrante boêmio, morador da Estrada Dona Francisca, foi atingido por uma pedra. Ninguém soube dizer quem havia sido o autor. A agressão deixou o animal muito machucado. “Não conseguiu andar por uma semana”, lamentou Dums. Era um cão “bravio e valente”, segundo o vizinho Carlos Körner. Quando algum estranho se aproximava da vizinhança, era sempre o primeiro a latir – latia antes que os cachorros de Alberto Malschitzky, também morador da Estrada Dona Francisca. E foram essas circunstâncias que chamaram a atenção de Dums e Körner no momento em que tiveram de depor.

Georg Dums já havia se recolhido ao seus aposentos na noite da quarta-feira seguinte, dia 25 de agosto. Era por volta de oito e meia da noite quando, subitamente, ouviu um barulho que parecia ser de dois tiros. Intrigado, debateu com a esposa sobre o que poderia ter sido aquilo. Decidiu então se levantar e verificar pessoalmente. Mal abriu a porta de casa, voltada para a rua, e encontrou o mesmo Körner, seu vizinho. Estava exaltado, e falou com rapidez:

– O Malschitzky… recebeu dois tiros e está quase morto!

Uma história que merece um livro

Entre as muitas lacunas ainda não preenchidas pelos historiadores de São Bento do Sul está a impressionante história do assassinato de Alberto Malschitzky, presidente da Câmara Municipal, ocorrido no trágico ano de 1897. Chamo de trágico porque não foi o único assassinato daquele ano e porque também, a julgar por alguns depoimentos, outros mais estiveram perto de acontecer. O assunto mereceu apenas alguns poucos comentários no livro de Carlos Ficker sobre a história da cidade. Mas pelo que observo nas páginas do jornal Legalidade, publicado na época pelo Dr. Felippe Maria Wolff, temos uma história que poderia muito bem render um livro ou filme.

Está na moda o lançamento de livros de história cujo título é um ano específico, acompanhado de um subtítulo enorme que tenta resumir o conteúdo e chamar a atenção para o que há de mais bizarro em nosso passado. Assim são “1808” e “1822” do Laurentino Gomes, ou ainda “1808-1834”, do Paulo Setúbal. Pois se algum desses historiadores tentasse fazer o mesmo com a história de São Bento do Sul, o livro fatalmente teria que se chamar “1897”. Faço inclusive a sugestão do subtítulo, garantindo que a história é exatamente essa:

A incrível história do alemão que enviou um telegrama, irritou um promotor de origens sombrias e acabou assassinado pelo mesmo brasileiro que havia matado por paixão e poder o seu tio, principal líder republicano da cidade, e de como um terrível plano de mortes e violências fez com que um clima de terror, medo e ameças tomasse conta de todos os seus habitantes”.

Chamaria a atenção, não? O mérito de livros como os de Laurentino Gomes é o de despertar o interesse de pessoas que naturalmente não leriam História. Acho que faria bem a São Bento algo assim. Mas enquanto não sai um livro, fiquemos com alguns spoilers revelados por aqui mesmo. Na semana que vem, aniversário da cidade, comentarei o episódio em que um cavalo foi levado preso, ainda como consequência dos episódios de 1897.

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