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Posts Tagged ‘Fendrich’

Por muito tempo acreditou-se, com base inclusive nos livros de história de São Bento, que o sapateiro e professor Friedrich/Frederico Fendrich fosse natural de Viena. É justamente essa a origem apontada para ele na lista de passageiros do barco Alert, que o trouxe ao Brasil em 1875.  Sabíamos inclusive que havia sido na capital austríaca que ele havia aprendido o ofício de sapateiro, e lá também teria conseguido uma certa cultura que o distinguiria a ponto de ser improvisado como professor  nos primeiros anos de São Bento. Mas agora sabemos que não foi lá que nasceu.

E sabemos porque o próprio Fendrich afirmou em registro de batismo ter nascido num lugar chamado Lomnitz, na Boêmia. Há mais de uma aldeia com esse nome na República Tcheca, país que abriga o atual território da Boêmia, mas imagino que agora já somos capazes de afirmar que Friedrich Fendrich nasceu na atual cidade de Lomnice nad Popelkou.

Dois mau-entendidos desfeitos

Por um acaso providencial, o registro de batismo em 1880 de Amália Josefina Fendrich, filha de Frederico, informa mais do  que Lomnitz como a cidade natal de seu pai: diz também perto de onde ela ficava. É de se concluir que também àquela época havia mais de uma Lomnitz na Boêmia, na época pertencente ao Império Austro-húngaro, e então o velho Fendrich teve a intenção de especificar ao Padre Carlos Boegershausen de qual delas exatamente ele vinha.  O padre ouviu e anotou: “Lomnitz, perto de…”. Aí entrou o primeiro mau-entendido, e que foi de nossa parte.

Ainda sem ter tido acesso aos livros de batismo da Igreja Católica de São Bento, fui informado de que o registro dizia “perto de Hochin”. Estive tão encantado por essa revelação do lugar de origem de Frederico Fendrich e certo da sua veracidade que mesmo agora, quando o acesso a esses livros é bastante facilitado,  sequer havia me ocorrido a necessidade de conferir o que estava escrito. E com essas informações fiz pesquisas e fui atraído por pistas falsas, que quase me levaram a aceitar Lomnice nad Luznici, no sul da Boêmia, como aldeia natal dos Fendrich.

Mas hoje, enquanto eu fazia um trabalho alheio à minha família, catalogando todos os batizados antigos da cidade, topei com o registro da Amália Josefina, e então pude perceber: não estava escrito Hochin.

Basta reparar na grande diferença existente entre o começo da suposta palavra Hochin e a letra H inicial utilizada coincidentemente logo no registro abaixo, que trata do batizado de uma Hermina:

Não sendo um H, a primeira coisa que me ocorreu foi que seria um I seguido de T, o que transformaria a palavra em Itochin, um nome praticamente japonês e absolutamente inexistente na Boêmia antiga e na atual República Tcheca. Reparei então que o suposto O da palavra deveria ser, na verdade, um S, uma vez que não estava ligado à letra seguinte – coisa que seria bem natural no caso de um O e bem improvável no caso de um S (observe a palavra “nascida”). Formei então uma nova palavra: “Itschin”. Aí entrou o outro mau-entendido que, felizmente, não foi meu, mas do padre.

Isso porque tudo leva a crer que tenha ouvido mal o nome dito por Fendrich, que na verdade falou Gitschin. O simples acréscimo do G inicial é capaz de resolver o mistério do local de origem, pois a atual cidade de Lomnice nad Popelkou, no norte da Boêmia, foi conhecida também como Lomnitz bei Gitschin, pelo menos até 1896. É isso que diz o Wikipedia e também é isso que mostra este selo aparentemente de 1859:

A aldeia identificada

A conclusão de que os Fendrich tem origem em Lomnitz nad Popelkou encontra respaldo inclusive na obra “Bayer in Brasilien”, escrita pelo alemão Josef Blau com base nas informações a ele repassadas principalmente por Jorge Zipperer – sobrinho de Friedrich Fendrich e que o conheceu até os seus 26 anos. Isso porque na lista com 496 lotes apresentada por Blau há também a informação sobre a origem de cada um dos seus proprietários. Nela Fendrich aparece como sendo da “Nordböhmen”, ou seja, do norte da Boêmia. É exatamente a região da Boêmia em que fica Lomnitz nad Popelkou, bem ao contrário de Lomnitz nad Luznici, a pista anterior, que ficava ao sul.

Lomnitz nad Popelkou tem apenas cerca de 6 mil habitantes. Está a 83 km da capital Praga. Fica no distrito de Semily e na região de Liberec. Há algum tempo os registros eclesiásticos de Liberec estão disponíveis no Family Search, mas a princípio ainda não estão os da região e os da época do nosso interesse. Mesmo assim, a simples descoberta da aldeia direciona os esforços de pesquisa para a região e aumentam as possibilidades de desvendar alguns outros mistérios envolvendo a família Fendrich.

Como os Fendrich foram parar lá?

Até então, ninguém parece questionar a origem do sobrenome Fendrich como sendo a Áustria. Inclusive, até hoje é possível encontrar pessoas portando o sobrenome em, vejam só, Viena. Admitindo que isso seja verdade, em algum momento alguém da família Fendrich parece ter migrado para regiões distantes como a Boêmia. Os motivos e a época dessa mudança ainda são absolutamente desconhecidos. Também não sabemos quanto tempo houve entre a migração para a Boêmia e a volta de Frederico Fendrich ao provável local de origem da família – e também não sabemos ainda os motivos para isso, que podem envolver parentes ou ser meramente profissional.

O interessante é que ainda hoje existem famílias Fendrych, com Y mesmo, habitando exatamente a cidade de Lomnice nad Popelkou. Conversei há algum tempo com um deles, mas infelizmente eles não tem informações sobre o passado da sua família. Como confirmamos que a família Fendrich de São Bento tem origem nessa mesma cidade, e como o sobrenome não é comum, só uma improvável coincidência faria com que eles não fossem do mesmo ramo. Assim, o que se imagina é que, embora Friedrich Fendrich tenha partido para Viena, e de lá para o Brasil, outros membros da família Fendrich permaneceram em Lomnitz, e lá tiveram descendentes, dos quais alguns portam o sobrenome em nossos dias.

Ainda há muito mais para descobrir sobre a origem dos Fendrich, mas a identificação exata do seu local de origem representa um avanço fabuloso na biografia da família e um impulso para que conquistas tão preciosas como essa possam vir à tona.

Abaixo, posto algumas fotografias de Lomnice nad Popelkou, conforme pude coletar através do Google Earth:

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O amigo Marcio Brosowsky, músico da Banda Treml, disponibilizou há algum tempo no Youtube a gravação de uma retreta feita em São Bento do Sul no final dos anos 80.  Desde os anos 40, as retretas acontecem no coreto da praça Getúlio Vargas entre os meses de janeiro e março. Brosowsky cita os músicos Otto Roesler Filho, Harald Bollmann, Bubi Grossl, Lauro Muhlbauer, Aldo Denk, João Galkowski, Herbert Fendrich e Fuhrmann entre aqueles que aparecem no vídeo e que já são falecidos.

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Esse é um trecho do título Fendrich, umas das famílias estudadas na minha Genealogia Boêmia de São Bento do Sul ainda inédita. Se você for membro da família Fendrich, entre em contato para trocarmos informações e ter seu nome incluído no trabalho.

Fendrich

FRIEDRICH FENDRICH, sapateiro, primeiro professor da sede de São Bento do Sul, presidente da Sociedade Auxiliadora Austro-húngara. Nasceu em Lomnitz, na Boêmia, no dia 24.04.1843. Casou-se por volta de 1873 em Viena, para onde havia se mudado em data incerta, com Catharina Zipperer, nascida em Flecken, na Boêmia, no dia 08.07.1845, filha de Anton Zipperer e Elisabeth Mischeck, neta paterna de Jakob Zipperer e Theresia Bohmann, e neta materna de Thomas Mischeck e Barbara Greil. Catharina Zipperer faleceu no dia 18.12.1905 (3F-149v), e seu esposo pouco tempo depois, em 24.01.1906, tendo sido ambos sepultados no Cemitério Municipal de São Bento do Sul. Tiveram a seguinte geração:

 1.1 Hedwiges Fendrich § 1.º

 1.2 Maria Catharina Fendrich § 2.º

1.3 Amália Josefina Fendrich § 3.º

1.4 Frederico Fendrich § 4.º

1.5 José Fendrich § 5.º

1.6 Francisco Fendrich § 6.º

1.7 Rodolfo Fendrich § 7.º

(…)

§ 4.º

1.4 Frederico Fendrich, sapateiro e comerciante, vereador, suplente e subdelegado de Polícia, juiz de paz, membro da Sociedade Auxiliadora Austro-húngara, da Sociedade dos Atiradores de São Bento do Sul, do Coral da Igreja Católica, do Coral e da Diretoria da Sociedade Beneficente Operária, idealizador e condutor da primeira carroça exclusivamente fúnebre da cidade. Tomou conta da sapataria do pai e a conduziu até falecer. Com o crescimento da Sapataria Fendrich, anexou uma loja de calçados, que teria sido a primeira da cidade. Nasceu em São Bento do Sul no dia 18.09.1881 e foi batizado no dia seguinte, tendo como padrinhos seus tios Josef Zipperer e Anna Maria Pscheidt. Casou-se na mesma cidade no dia 23.09.1908 com Anna Roesler, doméstica e doceira, nascida em São Bento do Sul aos 02.04.1891, filha de Johann Rössler, imigrante de Reichnau, e Amalie Preussler, de Grafendorf, neta paterna de Franz Rössler e Antonia Lang e neta materna de Bernard Preussler e Maria Anna Jäger. Frederico Fendrich faleceu no dia 25.05.1947 (3FR-56v) e foi sepultado no Cemitério Municipal de São Bento do Sul, no mesmo túmulo de seu pai. Sua esposa Anna Roesler faleceu em seu próprio domicílio aos 14.06.1968 e foi sepultada no mesmo lugar. Frederico Fendrich recebeu em sua homenagem o nome de uma rua situada ao lado da Sociedade Literária, em frente ao Hotel Urupês, na qual moram descendentes. Ele e sua esposa tiveram a seguinte geração:

 2.1 Alfonso Fendrich, nascido no dia 02.08.1909 em São Bento do Sul e falecido no dia 24.01.1910, tendo sido sepultado no Cemitério Municipal.

2.2 Luiza Fendrich, nascida em 22.09.1911 em São Bento do Sul. Casada no mesmo lugar no dia 23.11.1929 com Lourenço Peng, alfaiate e industriário, nascido em Jaraguá do Sul no dia 17.05.1902, filho de outro Lourenço Peng, falecido em 1912, e de Maria, nascida em 1860 e residente à época em Jaraguá do Sul. Luiza faleceu em São Bento do Sul à 1h15 do dia 01.02.1995. Seu esposo Lourenço faleceu no Hospital Sagrada Família às 14h45 do dia 22.11.1979. Ambos foram sepultados no Cemitério Municipal de São Bento do Sul. O casal residia à Rua Manoel Tavares 56, e teve:

 3.1 Nylsa Wandelina Peng, industriária, nascida em 20.07.1932 em São Bento do Sul, onde faleceu, solteira, em 21.05.1987. Sepultada no Cemitério Municipal.

3.2 Nelson Lourenço Peng, nascido em 28.05.1939 em São Bento do Sul, onde faleceu, solteiro, em 21.09.2001. Sepultado no Cemitério Municipal.

(…)

2.3 Alexandre Fendrich, sapateiro, herdou de seu pai os negócios da Sapataria Fendrich. Nascido em São Bento do Sul em 03.03.1913. Casou-se em primeiras núpcias no dia 02.05.1936, no mesmo lugar, com Catharina Fleith, nascida em Joinville no dia 08.09.1912, filha de José e Paulina Fleith. Catharina faleceu no dia 14.11.1955, tendo sido sepultada no Cemitério Municipal de São Bento do Sul. Viúvo, Alexandre uniu-se a Irmalinda Becker, falecida em São Bento do Sul aos 87 anos no dia 23.06.2010. Alexandre faleceu no Hospital Sagrada Família às 15h15 do dia 03.09.1974 e foi sepultado no Cemitério Municipal. Alexandre teve com Catharina Fleith a filha única:

 3.1 Adi Maria Fendrich, casada com Henrique Alberto Wetter, nascido em 17.10.1945 e falecido em 23.04.1982, sepultado no Cemitério Municipal de São Bento do Sul.

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Embora já tivesse um número razoável de imigrantes, a Colônia de São Bento, como dito, não contava ainda com médicos, professores e igrejas. Essas carências incomodavam os imigrantes, que então começaram a articular protestos e reivindicações à direção da Colônia exigindo as melhorias. Ainda em julho de 1874, menos de um ano depois da criação da Colônia, os imigrantes encaminharam uma petição à Direção em Joinville, na qual faziam uma série de exigências que incluíam a criação de uma escola com subvenção para um professor. Em resposta, o diretor Ottokar Doerffel informou que a Sociedade Colonizadora não se sentia na obrigação de criar uma escola, embora apoiasse a iniciativa (FICKER, 1973).

Protestos também ocorreram em 10 de janeiro de 1875, quando um grupo de colonos de São Bento foi a Joinville apresentar queixas semelhantes à direção da Colônia. Doerffel entendia que o número de moradores em São Bento ainda era reduzido e que essas carências eram inevitáveis no começo de uma povoação. Como resultado, os manifestantes conseguiram o direito de mandar dois imigrantes apresentar suas queixas pessoalmente às autoridades da Corte no Rio de Janeiro. Apenas na metade do ano seguinte a Sociedade Colonizadora receberia um ofício da Corte solicitando um orçamento para as melhorias pretendidas.

Em julho de 1875, quando Friedrich Fendrich chegou a São Bento, as carências ainda eram as mesmas. O problema da falta de assistência religiosa, entretanto, pôde ser amenizado no ano seguinte. O Padre Carlos Boegershausen, de Joinville, encomendou a construção de uma capela em São Bento. Ela foi erguida e ficava próxima à residência dos Fendrich. Era uma capela pequena e rudimentar – Zipperer a comparou ao estábulo onde Jesus nasceu. Naquele lugar, foi celebrada pela primeira vez uma missa em São Bento do Sul, no dia 08 de março de 1876.

Para suprir a ausência de escolas, os colonos decidiram agir por conta própria. Primeiro, era preciso encontrar um professor disposto a ensinar as crianças. A escolha não era das mais fáceis, pois a maior parte daqueles imigrantes era constituída de gente simples e sem muito estudo. Wilhelm Bollmann, ao comentar a escolha dos professores no interior da Colônia de São Bento, escreveu que, em geral, o cargo de professor era assumido por um imigrante mais instruído e letrado, e que “não hesitava em compartilhar da mesma adversidade e dos mesmos rigores criados pelo meio nos seus começos, dispondo-se a desempenhar as funções por poucos milréis mensais” (1923, apud PFEIFFER, 1997, p. 193).

Essas considerações também valem para a escola do centro da Colônia, uma vez que foi o fator instrução que definiu aquele que viria a ser o primeiro professor do lugar. O escolhido foi exatamente Friedrich Fendrich, o qual, tendo recebido certa educação e cultura em Viena, era, na opinião dos colonos, quem melhor estava em condições de tomar para si a responsabilidade de ensinar os filhos dos imigrantes alemães. Fendrich aceitou o convite e então começaram a ser tomadas providências para que a escola entrasse em funcionamento.

Leia também:

Parte I e Parte II 

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O imigrante Anton Zipperer, um dos pioneiros da colonização de São Bento do Sul, veio ao Brasil em 1873 e trouxe consigo a esposa e mais seis filhos. A sua primogênita, chamada Catharina Zipperer, permaneceu na Europa. Acredita-se que, na ocasião, ela já morava em Viena com seu esposo Friedrich Fendrich. A permanência em solo europeu, no entanto, não se prolongou por muito tempo, pois em 1875 Friedrich e Catharina também resolveram tentar a sorte no Brasil. Assim como os Zipperer, os Fendrich se instalaram na atual cidade de São Bento do Sul.

Friedrich Fendrich, o imigrante, era filho de Franz Fendrich e Maria Magdalena Trnka, os últimos desse sobrenome que se tem notícia. Nasceu no dia 24.04.1843 em Lomnitz, perto de Hochin, na Boêmia. Há mais de uma cidade com esse nome na República Tcheca – país que abriga o atual território da Boêmia. A melhor pista aponta para a cidade de Lomnice nad Luznici, antiga Lomnitz, 112 quilômetros ao sul de Praga, perto de Hluboka nad Vitavou, antiga Hosin. Apesar dessa coincidência, o pesquisador tcheco Petr Kalivoda informou que o sobrenome Fendrich não existe nessa região e que, no período de nosso interesse, nunca existiu nas redondezas (KALIVODA, 2008). De qualquer forma, o nome da aldeia de Lomnitz representa um avanço na biografia de Friedrich Fendrich, pois era desconhecido de todos aqueles que escreveram sobre este personagem.

Não é possível precisar a data em que Friedrich Fendrich se mudou para Viena. O cronista Josef Zipperer comenta que Fendrich passou em Viena “toda sua infância e mocidade” (ZIPPERER, 1951, p. 93). Assim sendo, também é de se supor que os pais estivessem com ele. Na capital austríaca, Friedrich aprendeu o ofício de sapateiro. Provavelmente, também foi lá que se casou com Catharina Zipperer, nascida no dia 08.07.1845 em Flecken, na Boêmia, primogênita de Anton Zipperer e Elisabeth Mischeck. Em 03.05.1874, o casal teve a filha Hedwiges, que também iria imigrar ao Brasil no ano seguinte.

Josef Zipperer afirma que as cartas escritas pelos imigrantes pioneiros aos parentes que ficaram na Europa facilitaram a posterior vinda de famílias como os Fendrich, Schadeck, Tschöke e Knittel. Isso porque, nessas cartas, a região era descrita como o verdadeiro “paraíso que o velho Adão nos fez perder” (ZIPPERER, 1951, p. 18). Diziam que a caça e a pesca, ao contrário do que acontecia na Boêmia, podiam ser livremente exercidas, e que não era preciso pagar pelo ensino, e nem contas de médico ou impostos – o que não diziam era que praticamente inexistiam possibilidades de caça e pesca, e que não havia nenhuma escola e nenhum médico que pudessem ser pagos pelos seus serviços.

Não se sabe com que frequência houve esse contato entre os Zipperer e os Fendrich, mas, de alguma maneira, ele realmente existiu. O diretor Ottokar Doerffel, em ofício citado por Ficker (1973), afirma que os Zipperer, tendo conseguido prosperar nos seus terrenos em São Bento, foram à Direção da Colônia para pagar a passagem de parentes que ainda estavam na Europa. Doerffel referia-se a Friedrich Fendrich e sua esposa Catharina Zipperer, o que é possível comprovar através de um documento da Companhia Colonizadora reproduzido no livro de Josef Zipperer (1951). Assim, os Zipperer contribuíram para que também os Fendrich pudessem vir ao Brasil. 

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 A primeira escola da região central de São Bento do Sul ficava no antigo prédio da Caixa Econômica Federal – atual Farmácia do Sesi. Foi construída ao lado da casa de seu primeiro professor, o sapateiro Friedrich (Frederico) Fendrich. Há razões para acreditar que a escola não foi construída em 1875, como sugere o cronista Josef Zipperer, e que inclusive tenha sido posterior à criação da primeira igreja católica da cidade, episódio que aconteceu em março de 1876.

Em primeiro plano, a casa de Friedrich Fendrich, localizada no começo da atual Avenida Argolo. Ao seu lado, a improvisada escola em que Fendrich, primeiro professor do lugar, lecionou entre 1876-1879. Aos fundos, a primeira Igreja de São Bento. Arquivo Histórico Municipal de São Bento do Sul

Isso porque o material usado para construir o prédio escolar foi feito com o rancho abandonado do agrimensor Theodor Ochsz, o qual, segundo documentação oficial citada pelo historiador Carlos Ficker, só foi embora de São Bento em maio de 1876. Esse rancho, localizado na região de Oxford, foi desmontado pelos colonos e trazido nas costas até o centro. Em seguida, montaram-no novamente ao lado da casa de Fendrich. Colocaram-se bancos e estava pronta uma escola.

 A iniciativa dos colonos teve origem na necessidade de que os seus filhos não crescessem como analfabetos e nos insucessos que haviam tido tentando que a Sociedade Colonizadora, em Joinville, providenciasse uma escola para São Bento. De forma improvisada, os imigrantes agiram por conta própria. Escolheram Fendrich como professor porque, entre os rústicos imigrantes, era quem havia tido melhor educação e havia adquirido certa cultura em Viena, cidade em que morava ao imigrar.

Frederico Fendrich (1843-1906), sapateiro de ofício, aceitou a missão de ensinar as crianças na primeira escola da sede de São Bento.

As aulas eram ministradas em alemão, única língua que Fendrich sabia falar – e com forte sotaque vienense. Embora as famílias alemãs fossem a maioria daquelas que habitavam a sede de São Bento, também existiam as polonesas, que se opuseram à nova escola e não mandaram seus filhos para lá. A escola de Fendrich chegou a ter cerca de 30 alunos, cujos pais pagavam uma mensalidade de 500 réis. A Sociedade Colonizadora passou a subvencionar a escola com 1200$000 por ano.

O sustento de Fendrich, no entanto, vinha com seu verdadeiro ofício. O professor ministrava as aulas pela manhã e à tarde entrava em cena o sapateiro. A escola continuou funcionando, embora com intervalos irregulares, até por volta de setembro de 1879. Na ocasião, chegou a São Bento o padre Adalberto de Leliva Bukowski, que assumiu a questão do ensino na Colônia e atraiu para uma nova escola os poloneses que Fendrich não podia ensinar.

Foi, portanto, por cerca de três anos que funcionou a primeira escola do centro de São Bento. O reconhecimento pelos esforços de Frederico Fendrich no seu cargo improvisado de professor e o seu pioneirismo na atividade fizeram com que fosse homenageado, anos depois, com o nome de um estabelecimento de ensino no bairro de Serra Alta. Muito se falou sobre a possível construção de um busto em sua homenagem no local da primeira escola, mas nada foi feito na prática até hoje.

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Friedrich Fendrich, ancestral de todos os Fendrich da região de São Bento do Sul, não nasceu em Viena – embora essa história venha sido repetida até hoje por alguns historiadores locais. Já tivemos a oportunidade de especular os motivos que o levaram a se mudar de Lomnitz, sua aldeia natal na Boêmia, para a charmosa capital austríaca. Também já desmentimos a história contada por José Kormann de que a esposa de Fendrich havia assistido ao incêndio do Teatro Ringtheater, em Viena. E, por fim, também já cogitamos a maneira com que Fendrich e Catharina Zipperer se conheceram na cidade.

Ferroviária no sul de Viena. A foto teria sido tirada no ano de 1875. Foi exatamente nesse ano que a família de Friedrich Fendrich imigrou ao Brasil.

Temos ocasião agora de falar sobre a existência de outros Fendrich em Viena, evidenciada pelo seu mais ilustre representante nos dias de hoje: o cantor, ator e apresentador Rainhard Fendrich, personagem de destacada popularidade na Áustria. Não significa, a princípio, que ele venha do mesmo ramo que os Fendrich brasileiros, apesar da coincidência de ser natural de Viena. Ao mesmo tempo, também não se descarta essa possibilidade: sabemos muito pouco sobre a família até agora.

Já encontrei citações de que o sobrenome Fendrich é, em sua origem, austríaco, o que naturalmente explicaria a presença de pessoas com esse sobrenome em Viena. A primeira “versão” do nome é “Fähnrich”, que vem do alemão medieval e representa o oficial mais jovem do regimento e que carrega a sua bandeira (Fähne) de identificação. Corresponde ao nosso cadete, alferes ou guarda-marinha. As diferentes formas de escrever o sobrenome sugerem a existência de famílias diversas. Rainhard Fendrich, no entanto, é da mesma região e tem o sobrenome com a mesma grafia.

Rainhard Fendrich, nascido em Viena, é um dos mais famosos astros pop da Áustria.

Por motivos ignorados, nossos Fendrich se afastaram da Áustria e migraram para a Boêmia. Não é possível dizer quanto tempo estiveram lá. De qualquer forma, a ida de Friedrich Fendrich para Viena representa uma volta da família ao seu provável local de origem. Isso nos leva a cogitar que a migração para a Boêmia fosse recente e que ainda houvesse contatos familiares em Viena. Como cremos que Friedrich foi para a Áustria sem os pais, essa hipótese ganha força. Talvez tenha se mudado para a casa de parentes.

Desconhecemos, até hoje, que Friedrich tenha tido irmãos. Se os teve, não vieram ao Brasil – e assim sendo, deixaram descendentes possivelmente também na capital austríaca. Não é de todo improvável que Viena tenha um único ramo familiar de Fendrich e que ele também inclua o Rainhard Fendrich. São hipóteses que, por enquanto, ainda não podem ser confirmadas.

A ponte Aspernbrücke, em 1875. Viena conta até hoje com membros da família Fendrich. É possível que Friedrich Fendrich tenha encontrado parentes ao ir para lá.

Rainhard Fendrich – Nasceu em Viena no dia 27/02/1955. É um dos mais bem sucedidos astros pop austríacos. Apesar do sucesso em seu país, é pouco conhecido nos outros países que falam alemão, e praticamente desconhecido nos que não falam. Uma de suas canções mais populares no país é “I am from Austria”, de 1990. Atuou em musicais na cidade de Viena e participou de vários filmes austríacos e alemães. Foi apresentador de alguns programas de TV, incluindo o “Show do Milhão” da Áustria. Recebeu, inclusive, premiação de melhor apresentador da década de 90 em seu país.

Fendrich foi casado entre 1984-2004 com Andrea Sator. O divórcio rendeu considerável publicidade. O casal teve os filhos Florian e Lucas Fendrich, que tentou a carreira musical, mas ainda sem muito sucesso. Em 2006, Rainhard foi pego pela polícia de Viena comprando cocaína. Ele admitiu que usava havia 15 anos e foi imediatamente para um clínica de recuperação de drogados – apesar disso, não se livrou de pagar uma multa. O mais interessante é que tudo isso não teve nenhuma influência visível na sua popularidade.

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Resolvi contar na lista telefônica os sobrenomes com maior quantidade de números em São Bento do Sul. O objetivo era ter uma ideia dos sobrenomes estrangeiros mais comuns na cidade. Consultei as edições do Rotary de 2000, 2003 e 2005 (infelizmente não tive acesso à de 2008). Os resultados foram bastante semelhantes nas três edições, apenas com ligeira troca de posições de ano para ano. Naturalmente, esse não é um trabalho científico, e seus resultados não podem ser levados tão a sério – embora possam ser bons indicativos.

Segundo a lista telefônica de 2005, os sobrenomes mais comuns em São Bento são:

2005

1. Pscheidt 86

2. Becker/Beckert 82

3. Weiss 73

4. Bail/Bayerl e variações 70

5. Linzmeyer e variações 68

6. Liebl e Rank 64

8. Grossl 53

9. Rudnick 52

10. Schröder 45

11. Krüger 44

12. Dums 42

13. Mühlbauer 41

14. Fendrich, Gruber e Neumann 40

Isso significa que a família Pscheidt é a que mais possui telefone em São Bento. E que, provavelmente, tem tudo para ser o sobrenome com maior número de portadores na cidade. Tal predomínio se justifica: o imigrante Wenzel Pscheidt, quando veio ao Brasil em 1876, trouxe consigo 11 filhos. Destes, 7 eram homens – ou seja, levaram adiante o sobrenome Pscheidt. Cada um desses 7 também teve uma quantidade considerável de filhos, e boa parte deles também homens. Com isso, o sobrenome, que já era bastante comum no início, se tornou ainda mais popular e se espalhou pela região.

Os Pscheidt já lideravam a lista telefônica na edição anterior, de 2003, que apresentou a seguinte frequência de sobrenomes na cidade:

2003

1. Pscheidt 94

2. Becker/Becker 75

3. Bail/Bayerl e variações 70

4. Linzmeyer e Rank 67

6. Weiss 65

7. Liebl 64

8. Grossl 63

9. Rudnick 50

10. Schröder

11. Grosskopf 43

12. Fendrich e Krüger 41

14. Gruber 40

15. Mühlbauer e Neumann 39

Não houve alteração de sobrenome entre os 10 primeiros, apenas em suas posições. É possível ver que, entre 2003 e 2005, a família Pscheidt se desfez de alguns telefones. A família Becker, por sua vez, resolveu adquirir vários (talvez na ânsia de assumir a primeira posição). Ao contrário da família Pscheidt, não é possível dizer que os Becker venham de um único tronco familiar (a própria diferença entre Becker e Beckert é mostra disso).

Houve a família do imigrante Anton Beckert, que veio a São Bento, mas também houve ramos que vieram depois, de Joinville, para a cidade. Apenas um trabalho genealógico mais apurado vai poder identificar em que medida se trata de uma mesma família.

A lista telefônica do ano 2000, mais antiga a ser consultada, mantinha os Pscheidt na liderança. Na ocasião, os Becker ainda estavam na terceira colocação:

2000

1. Pscheidt 62

2. Bail/Bayerl e variações 55

3. Becker/Beckert 52

4. Grossl 48

5. Rank 44

6. Weiss 42

7. Rudnick 36

8. Fendrich e Schröder 34

10. Linzmayer e variações 32

11. Liebl 30

12. Gruber e Neumann 29

14. Dums 26

15. Grosskopf 25

Os resultados das três listas mostram a franca decadência do telefone nas residências dos Bayerl. Em 2000, era a segunda família mais citada. Em 2003, a terceira. Em 2005, a quarta. A família Bayerl e a sua meia dúzia de variações, também ao contrário dos Pscheidt, não representa a mesma família. Foram ao menos seis as famílias Bayerl que imigraram para São Bento do Sul na década de 1870. A grande quantidade de famílias portando o sobrenome ajuda a explicar a sua frequência. Se elas têm uma origem em comum, ela acontece apenas lá na Europa, o que hoje ainda é impossível descobrir.

Gostaria de citar também que, no ano 2000, os Fendrich apareceram entre os 10 primeiros, e depois nunca mais. Há uma explicação: já faz algum tempo que só nascem mulheres na família.

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A atividade de sapateiro na família Fendrich começou com o imigrante Frederico Fendrich, que aprendeu o ofício  em Viena. Em São Bento, logo tratou de montar uma sapataria anexa à sua casa. Quando seus filhos Frederico e Francisco cresceram, passaram a trabalhar na oficina do pai. A família cobrava 7 mil réis por um par de botinas que, segundo quem usava, duravam anos. As botas até o joelho eram usadas para enfrentar o mato e a roça.

Em 1906, o sapateiro Frederico Fendrich faleceu. Seus dois filhos não se entenderam sobre quem deveria tomar à frente nos negócios da família. Não houve acordo amigável. Por fim, a sapataria passou a ser cuidada pelo filho também chamado Frederico – que era o mais velho. Seu irmão Francisco, não se conformando com a decisão, decidiu se mudar para Curitiba, afirmando inclusive que jamais voltaria a pisar em São Bento – promessa exagerada, pois cinco anos depois ele participou de um casamento na cidade.

Enquanto Francisco tentava abrir uma sapataria em Curitiba, Frederico tratou de aperfeiçoar os negócios que havia herdado do pai. A sapataria chegou a contar com dez funcionários e, conforme progredia, foi possível anexar a ela uma loja de calçados. Frederico ensinou o ofício ao seu filho Alexandre, que conduziu a Sapataria Fendrich até os primeiros anos da década de 70.

Como foi em 1875 que Friedrich Fendrich iniciou a atividade em São Bento, a sapataria funcionou por praticamente 100 anos na cidade.

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Já tivemos oportunidade de especular sobre os motivos que levaram Friedrich Fendrich a deixar sua aldeia natal para morar em Viena. Mas e sua esposa Catharina Zipperer, nascida em Flecken, na Boêmia, como é que foi parar na capital da Áustria?

A primeira referência de um membro da nossa família Zipperer em Viena acontece ainda na primeira metade da década de 1830, quando o pioneiro Anton Zipperer lá esteve, aparentemente por curto período, atuando como soldado. Anton também esteve em Klosterneuburg e Verona, onde ficou por dez anos e então voltou para Flecken, na Boêmia. Ou seja, não deve ter estabelecido qualquer tipo de vínculo maior com Viena.

O primeiro filho homem de Anton Zipperer, chamado Josef Zipperer, teve uma participação maior na capital da Áustria. Por volta de 1865, ele trabalhou em Viena como tanoeiro. Essa mudança parece refletir a importância que a cidade exercia economicamente no contexto da região. Pessoas, aparentemente, se mudavam para Viena a fim de conseguir melhores empregos. Também lá, Josef Zipperer se apresentou livremente ao Regimento Vienense quando estourou a Guerra Franco Prussiana, em 1866. Após a guerra, voltou para a Boêmia, e lá passou a trabalhar também como tanoeiro.

Josef voltou a Viena em 1870, depois de passar um período trabalhando como tanoeiro numa cervejaria em Eisenstein, aldeia próxima da divisa entre Boêmia e Bavária. Foi enquanto lá trabalhava, também numa cervejaria, que Zipperer teria contraído a misteriosa doença, estranhamente omitida em suas memórias, e que desencadearia a imigração da família. Ou seja, Josef lá esteve, na sua segunda passagem, por aproximadamente três anos, já que em junho de 1873 os Zipperer embarcaram rumo ao Brasil.

Espécie de bonde a cavalo existente em Viena no ano de 1872. Na ocasião, Josef Zipperer trabalhava na cidade como tanoeiro em uma cervejaria.

Esses são os registros conhecidos da família de Catharina em Viena. Tudo que podemos cogitar é que, em algum momento, ela também esteve na capital austríaca, e talvez possa ter morado lá também, na companhia do seu irmão. A maneira que a levou a encontrar seu esposo Friedrich Fendrich permanece totalmente desconhecida. Podemos supor muitas coisas, como um encontro na cervejaria de Josef Zipperer – figura que parece ser digna de muito apreço por Fendrich, já que foi o padrinho de todos os seus filhos nascidos no Brasil.

Aparentemente, Catharina e Friedrich já moravam juntos em 1873, pois quando a família Zipperer imigrou, naquele ano, o casal permaneceu em Viena, onde se casou e batizou a filha Hedwiges. A permanência na capital da Áustria, no entanto, não se prolongaria por muito tempo, pois já em 1875, depois que a família Zipperer pagou as suas passagens, os Fendrich também imigraram ao Brasil.

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Quando Friedrich Fendrich e sua esposa Catharina Zipperer deixaram a cidade de Viena, em 1875, o teatro Ringtheater ainda estava em pé. Na verdade, ele mal acabara de ser construído. As obras haviam se iniciado em 1872 e terminaram dois anos depois. A abertura oficial aconteceu em 17.01.1874, e o teatro se destinava a operas cômicas, em contraponto à seriedade do Wiener Hofober, outra casa de ópera da cidade. Em setembro de 1878, quando a família Fendrich não estava mais em Viena, o foco da casa mudou para as peças faladas, com óperas alemãs, italianas e variadas. O nome, então, foi mudado para Ringtheater.

Em 1881, a direção do teatro quis aumentar a capacidade de público do lugar, que já estava pequeno. Um arquiteto se viu forçado então a aumentar para cima a construção do teatro. As conseqüências foram desastrosas, pois no dia 08.12.1881, antes da apresentação do “Les contes d’Hoffmann” iniciou-se um incêndio que destruiu totalmente o teatro, matando ao menos 384 pessoas que lá estavam para a apresentação.

Ruínas do Ringtheater, destruído em um incêndio em dezembro de 1881

Como já estavam no Brasil há mais de seis anos, os Fendrich, naturalmente, nada viram desse incêndio ocorrido em Viena. Por essa razão, não entendemos e consideramos totalmente improcedente a afirmação de José Kormann de que Catharina Zipperer estava na capital austríaca no dia da tragédia. Em seu livro “O Tronco Zipperer”, Kormann afirma que Catharina era empregada na casa de um professor em Viena, e que ele não queria deixar os seus filhos irem ao Ringtheather naquela noite. A mãe, no entanto, permitiu que fossem escondidos, e o incêndio fez com que perecessem. Assim nos conta Kormann, que ainda afirma, equivocadamente, que a tragédia aconteceu dois anos depois, em 1883.
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Ora, Catharina Zipperer e seu esposo Friedrich Fendrich estavam no Brasil desde 1875, e não há razão nem registro que nos levem a acreditar que tenham voltado para Viena depois disso. Em setembro de 1881, três meses antes do incêndio, nasceu em São Bento do Sul meu bisavô Frederico. Admitindo-se absurdamente que neste período eles voltaram para a capital da Áustria, a inquieta família já estaria de volta em 1883, quando batizaram o filho José em São Bento. Certamente não haveria dinheiro nem ânimo para tamanho empenho e, mesmo que houvesse, nada consta em livros de registros de passageiros.

Assim, não nos resta a menor dúvida de que a afirmação é falsa, pra não dizer totalmente absurda. Kormann não nos informa qual foi a sua fonte, e não me respondeu quando lhe perguntei sobre o assunto por correspondência. Praticamente nada se sabe sobre o passado da família Fendrich em Viena, mas uma coisa já é possível afirmar sem medo: eles não estavam lá quando o Ringtheater incendiou.

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É sabido que o imigrante Friedrich Fendrich, sapateiro e primeiro professor do núcleo central de São Bento, veio ao Brasil de Viena, capital da Áustria. Fendrich, no entanto, nasceu na aldeia de Lomnitz, na Boêmia. Não sabemos com precisão ainda em que momento e por quais motivos Fendrich deixou sua aldeia natal e partiu para Viena – grande centro urbano da época.

Até pouco tempo, não estava descartada a hipótese de que Friedrich teria se mudado bastante jovem para lá, possivelmente ainda criança, acompanhado dos pais, Franz Fendrich e Maria Magdalena Trnka. Agora, somos levados a crer que Friedrich se mudou sozinho para Viena – essa descoberta é importante para podermos pensar nos possíveis motivos para a sua mudança.

A descoberta surgiu porque Friedrich Fendrich registrou civilmente em São Bento do Sul, no ano de 1891, seu filho mais novo, Rodolfo Fendrich. Nesse assento, Friedrich declara Lomnitz como sua naturalidade, que se casou com Catharina Zipperer em Viena, e que seus pais já haviam falecido na Boêmia. Admitindo que isso seja verdade, é de se supor que Franz Fendrich e sua esposa não acompanharam Friedrich quando este se mudou para a capital da Áustria.

Ainda se sabe muito pouco sobre o passado de Friedrich Fendrich na Europa. A mudança para Viena sugere uma busca por estudo ou trabalho – de fato, consta que Friedrich era homem bastante sabido em meio aos imigrantes e que, além disso, teria aprendido em Viena o seu ofício de sapateiro.

Se não sabemos com exatidão o motivo que levou Friedrich à Viena, também estranharíamos a mudança que o trouxe até São Bento, se considerarmos que a urbanizada capital austríaca contava com cerca de 700 mil habitantes na época, enquanto que a nossa cidade, no meio do mato, contava com mais ou menos 500 caboclos. Vieram, ao que tudo indica, seduzidos pelos relatos da família de sua esposa, Catharina Zipperer, que pintavam a região como verdadeiro paraíso e, além de tudo, custearam a passagem da família.

A Catedral de Viena, em 1870, contrasta absurdamente com o “estábulo”, como chamou José Zipperer, que se tornou a primeira igreja de SBS

Tenho pesquisado muita coisa e sobre muitas famílias, mas as pequenas e até mesmo raras descobertas sobre os Fendrich, família do qual porto o sobrenome, estão entre as que mais me emocionam. Escrevi recentemente um artigo de 10 páginas sobre a saga da família Fendrich, que deveria ser publicada no livro “Famílias Catarinenses de Origem Germânica”, obra que ainda não saiu. Caso demore mais, publicarei aqui no blog.

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A única foto conhecida da Sociedade Auxiliadora Austro-húngara, disponível no Arquivo Histórico de São Bento do Sul, foi publicada pela primeira vez no livro “São Bento no Passado”, de Josef Zipperer (1951). Nele, não existe citação a qualquer dos personagens que dela fazem parte, mas apenas do ano em que foi tirada – 1900. Osny Vasconcellos e Alexandre Pfeiffer reproduziram a fotografia no belo “São Bento – Cousas do Nosso Tempo”(1991), e de lambuja identificaram dois personagens: o presidente Friedrich Fendrich, que é o quinto da primeira fileira, ostentando grandiosa barba branca, e Johann Hoffmann, outro dos principais personagens da Sociedade, e que está imediatamente depois de Fendrich.

Recentemente, algumas novas descobertas têm sido feitas. A foto de Benedicto Bail, o noivo do primeiro casamento boêmio de São Bento do Sul, e que me foi cedida por Norma Huebl, permitiu que também esse personagem fosse identificado entre os membros da Sociedade. Na fotografia, Benedicto é o quarto da segunda fileira.


Fontes familiares também deram conta da participação dos irmãos Aloís e Johann Schreiner na Sociedade. A comparação de fotos permite considerar que Aloís Schreiner é o terceiro após Benedicto Bail. Johann, por sua vez, seria o próximo, penúltimo desta fileira.

Também recentemente, pude reconhecer meu bisavô Frederico Fendrich Filho na foto. É o quarto da terceira fileira, partindo da direita. Contava na época com 18 ou 19 anos. O professor Friedrich Fendrich, além de Frederico, teve um outro filho homem chamado Francisco, do qual não se sabe a idade, mas que, caso tenha sido mais velho, provavelmente também está presente na foto. O outro filho, José Fendrich, contava com 17 anos e, aparentemente, não estava na ocasião.

Ainda procurando comparar fotografias da época com essa fotografia da Sociedade, creio ter encontrado mais um membro. Paul Zschoerper, que foi o primeiro presidente da Sociedade dos Atiradores de nossa cidade, parece ser o mesmo que está na terceira fileira (o terceiro, contando o porta-bandeira). Traços fisionômicos como a barba, a testa larga e o cabelo são bastante semelhantes.

Até o momento, foram essas as descobertas e suposições que nos foram permitidas levantar a respeito dos membros da histórica foto da Sociedade Auxiliadora Austro-húngara.

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I. FRANZ FENDRICH, casado com Maria Magdalena Trnka. Pais de:

II. FRIEDRICH FENDRICH, sapateiro, primeiro professor de São Bento do Sul e presidente da Sociedade Auxiliadora Austro-húngara. Nasceu em Lomnitz, na Boêmia, em 24.04.1843. Mudou-se para Viena, onde se casou por volta de 1873 com Catharina Zipperer, filha de Anton Zipperer e Elisabeth Mischeck. Imigraram ao Brasil em 1875 a bordo do Barco Alert, tendo se estabelecido em São Bento. Friedrich Fendrich, considerado homem de certa cultura, foi o primeiro professor da Colônia, tendo lecionado entre 1876 e 1879, de forma improvisada. As atividades da sua escola eram divididas com o seu ofício de sapateiro, no qual logo se destacou e conseguiu prestígio. Também foi presidente da Sociedade Auxiliadora Austro-húngara, agremiação de auxílio mútuo para os imigrantes boêmios de São Bento. Faleceu em São Bento do Sul no dia 24.01.1906, pouco mais de um mês após ficar viúvo, e está sepultado no Cemitério Municipal de São Bento do Sul. Recebeu em sua homenagem o nome de uma escola no Bairro Serra Alta. Tiveram, entre outros:

III. FREDERICO FENDRICH, sapateiro e comerciante, vereador (1915), suplente e Subdelegado de Polícia (década de 20), membro da Sociedade Auxiliadora Austro-húngara (desde 1899), da Sociedade dos Atiradores de São Bento do Sul, do Coral da Igreja Católica (por mais de 40 anos), do Coral e da Diretoria da Sociedade Beneficente Operária, idealizador e condutor da primeira carroça exclusivamente fúnebre da cidade (1935). Nasceu em São Bento do Sul no dia 18.09.1881, onde também se casou a 23.09.1908 com Anna Roesler, filha de Johann Roesler e Amália Preussler. Tomou conta da sapataria do pai e a conduziu até falecer. Com o crescimento da Sapataria Fendrich, anexou uma loja de calçados, que teria sido a primeira da cidade. Faleceu em São Bento do Sul no dia 25.05.1947, estando sepultado no Cemitério Municipal. Possui o nome de uma rua em sua homenagem, localizada no centro da cidade. Foram pais de:

IV. HERBERT ALFREDO FENDRICH, Regente da Sociedade de Cantores 25 de Julho (1983-2000), músico da Banda Treml (1954-1989), da Bandinha Continental (1961-1968), da Bandinha São Bento (1970-1971), da Bandinha do Opa (1994-2006), da Bandinha de Gregório Rank e da Banda Padre José Maurício (1996-2006); membro do Coral Montanara (anos 70), do Coral Santa Cecília (por mais de 30 anos), do Coral da Igreja Evangélica de Oxford, do Coral Centenário, criado especialmente para as comemorações alusivas aos 100 anos de São Bento do Sul, em 1973, e ainda do Grupo de Cítaras Edelweiss (anos 80); maestro do Deutsch Bayerisch Saengerbund (2004-2007); historiador que registrou em cuidadosos cadernos todos os eventos, apresentações, retretas e viagens da Banda Treml durante os 35 anos que nela tocou, tendo feito o mesmo durante o período que esteve na regência da Sociedade de Cantores 25 de Julho; responsável pelo resgate das fotografias dos presidentes da dita Sociedade; marceneiro, produzia bengalas, muletas, porta-cortinas, cortadores de legumes, cabides, etc, além de consertar móveis e objetos variados; responsável pela restauração da primeira carroça fúnebre da cidade, idealizada pelo seu pai, e com a qual desfilou no aniversário da cidade em 1992. Nasceu no dia 05.04.1930 e casou-se em São Bento do Sul no dia 06.10.1951 com Dóris Izolda Giese, filha de Rodolfo Giese e Catharina Bail. Faleceu também em São Bento do Sul no dia 30.07.2007, tendo sido sepultado no Cemitério Municipal. Pais de:

V. HERMES RODOLFO FENDRICH, nascido em São Bento do Sul no dia 23.04.1967, tendo se casado em Campo Alegre no dia 07.02.1987 com Rosina de Fátima da Silva, filha de Luiz da Silva e Otília Fragoso, com quem teve o filho único:

VI. HENRIQUE LUIZ FENDRICH, nascido em São Bento do Sul em 20.05.1987.

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Recebi do primo Eduardo Anselmo Fendrich o recorte de uma matéria feita pelo extinto Jornal Informação com seu avô, José Fendrich Filho, o fundador da Padaria Fendrich – da qual trabalhou de 1946 ao ano 2000, tendo sido o diretor até 1977.

 

Segundo seu neto Lisandro José Fendrich, depois que deixou de participar nos negócios, José trabalhava apenas enquanto padeiro no período noturno, enfornando e desenfornando os pães, sem participação nos lucros (embora fosse o dono do imóvel e da maioria das ações societárias da empresa).

 

Continuava trabalhando, realmente, por amor à profissão.

 

A padaria existe até hoje, agora comandada por Leomar José Fendrich, um dos filhos de José Fendrich Filho. A entrevista é de 1997.


José Fendrich Filho, 63 Anos Com a Mão na Massa


Padaria Fendrich, 50 anos em São Bento do Sul… Uma vitória com muito esforço em épocas de muita dificuldade para o povo brasileiro. Fundada pelo Sr. José Fendrich Filho em 26/02/1946, o pão de muita mesa sãobentense ainda é preparado com a ajuda do padeiro mais antigo de nosso município. Seu José ainda chega de madrugada e juntamente com o filho e o neto preparam a massa para o pão fresquinho da manhã. Na última terça-feira, dia 14, conversamos um pouco com esse cidadão que muitas histórias tem para nos contar. Segundo ele o mais difícil foi no começo quando as estradas ainda eram de barro e ele tinha que percorrer todas as manhãs de bicicleta até Oxford para entrega de pães. Fizemos mais algumas perguntas para o Sr. José e assim nos respondeu:


INF: Exercer uma função por 63 anos é preciso gostar da profissão.


SR. JOSÉ: Sim, acho que em tudo que a gente vai fazer é preciso gostar, do contrário acaba saindo mal feito. Estou com 75 anos e comecei aprender pão com apenas 12 e até hoje o faço.


INF: Nestes 50 da Padaria muita coisa mudou. O que o Sr. destaca como mudança fundamental acontecida nesses anos?


SR. JOSÉ: Aconteceu muitas mudanças fundamentais para a vida do brasileiro, mas na nossa área de trabalho a mudança principal aconteceu nos anos 50 quando precisávamos percorrer muitas colônias para conseguir comprar trigo até que o presidente brasileiro supriu a todo mercado com trigo.


INF: Com tanta experiência, o Sr. acha que o nosso país está assim tão ruim? Ou já esteve muito pior?


SR. JOSÉ: O nosso país não está assim como estão falando. Já tivemos épocas bem piores, a tendência é que o Brasil só melhore.


INF: Na época atual não é comum que a juventude trabalhe tanto tempo em um mesmo local. Por quê?


SR. JOSÉ: É muito difícil que os jovens permaneçam muito tempo em um só emprego, e um pouco é porque estão buscando sempre coisas novas até para seu desenvolvimento profissional.


INF: O Sr. gostaria de mandar alguma mensagem para o povo sãobentense, o qual cresceu conhecendo o seu trabalho?


SR. JOSÉ: Apenas quero dizer que procurem sempre buscar suas realizações tanto pessoal como profissional, pois a vida é uma batalha constante e quem trabalha forte merece a vitória.

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O livro “Famílias Catarinenses de Origem Germânica”, projeto organizado por Toni Jochem em comemoração aos 180 da Imigração Alemã em Santa Catarina, contará com a presença significativa de sobrenomes da região de São Bento do Sul. Das mais de 100 famílias já inscritas, a cidade estará representada pelos seguintes sobrenomes e pesquisadores:

 

Angewitz – Henrique Luiz Fendrich e Márcio Ricardo Staffen

Beyerl – Henrique Luiz Fendrich

Bollmann – Antônio Dias Mafra

Diener – Douglas Moeller Diener

Fendrich – Henrique Luiz Fendrich

Froehner – Juliano Froehner

Hackbarth – Zilda Hatschbach

Hatschbach – Zilda Hatschbach

Hümmelgen – Cristian Luis Hruschka

Kobs – Sueli Aparecida Tuleski

Prüss – Flávio Pruess

Roesler – Henrique Luiz Fendrich

Schindler – Flávio Pruess

Schuhmacher – Márcio Ricardo Staffen

Staffen – Márcio Ricardo Staffen

Zipperer – Henrique Luiz Fendrich

 

É um bom número de participantes, que certamente saberá representar da melhor maneira as suas famílias e a própria história de São Bento do Sul. Lamenta-se, no entanto, que alguns sobrenomes tradicionais na cidade, como Pscheidt, Grossl e outros, não possuam pesquisadores entre os seus descendentes e, por conta disso, não poderão fazer parte dessa valiosa publicação, que se deverá se tornar fonte de pesquisa para as gerações posteriores. A nossa intenção era fazer com que o maior número possível de famílias são-bentenses fossem representadas no livro.

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Meu avô Herbert Alfredo Fendrich foi regente da Sociedade de Cantores 25 de Julho, em São Bento do Sul, entre os anos 1983-2000. Uma das tradições que, ao longo desse tempo, a Sociedade buscava manter, era a de acompanhar com cantos o sepultamento de membros e de pessoas relacionadas ao Coral.  Já em 1897 existia registro de ato semelhante por parte dos coralistas, quando faleceu Henrique Hettwer. Era uma maneira de homenagear e mostrar o reconhecimento por essas pessoas, tornando a cerimônia mais bela e emocionante, levando muitos às lágrimas. Normalmente, cantava-se no velório e também ao pé da sepultura. Essa tradição se manteve enquanto Herbert Alfredo Fendrich foi o regente do Coral. E, nesse período, a Sociedade de Cantores 25 de Julho, com seus belos cantos, acompanhou até à última morada as seguintes pessoas, conforme as bem-cuidadas anotações de meu avô:

 

11.09.1984 José Kellner

10.02.1985 Nelson Weiss

17.02.1986 Elisabeth Grosskopf

23.03.1986 Eraldo Sprotte

03.05.1986 Sophia Schwedler

10.05.1986 Maria Lietz

28.09.1987 Lino Sprotte

01.06.1988 Wilhelm Ziemann

12.08.1988 Edgar Panneitz

10.04.1989 Bráulio Rudnick

21.08.1989 Antônia Rudnick

22.11.1989 Erhardt Mareth

04.12.1989 Orlando Ziebarth

07.12.1989 Heinz Selke

08.04.1990 Ornith Bollmann

03.06.1990 Gustavo Sprotte

30.06.1990 Maria Struck

23.12.1990 Julio Panneitz

19.02.1991 Edy Ellingen

19.04.1991 Bruno Linke

17.05.1991 Alfredo Reinaldo Scholze

19.06.1991 Ervino Schwedler

16.07.1991 Hugo Weiss

10.09.1991 Maria Schwarz

27.11.1992 Alfredo Priebe

27.05.1993 Erna Schwedler

02.07.1993 Wilfredo Weihermann

01.11.1993 Sophia Scholze

12.03.1994 Leonardo Scholze

16.05.1994 Jonnas Rudnick

03.07.1994 Germano Struck

11.12.1994 Lino Schwarz

28.04.1995 Erhardo Rudnick

11.10.1995 Rudolf Schlagenhaufer

13.11.1995 Vigando Radinz

15.12.1995 Albino Tschoecke

14.04.1996 Gustavo Rudnick

06.07.1996 Alfredo Schulz

21.04.1997 Berta Sprotte

30.04.1997 Waldemar Scholze

16.06.1997 Venanda Lilly Kellner

01.11.1997 Paulo Pauli

20.11.1997 Valfrido Scholze

26.11.1997 Ricardo Neubauer

30.01.1998 Elfrida Cristina Sprotte

22.09.1998 André Brodel

05.11.1998 Olga Hannemann

22.01.1999 Siegfried Schürle

22.05.1999 Clara Kohlbeck

26.09.1999 Elly Tschoecke

19(?).12.1999 Amália Panneitz

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Para melhor comemorar os 180 Anos de Imigração Alemã em Santa Catarina, um projeto deverá lançar um livro com a história de várias famílias germânicas que, nesse período, se instalaram no estado. A iniciativa e organização está a cargo de Toni Jochem, e todos os pesquisadores poderão escrever artigos sobre suas famílias – ainda é possível se cadastrar.

São Bento do Sul e região estão representados, até agora, por: Márcio Ricardo Staffen (um colega que nasceu no mesmo dia, mês e ano que eu), que escreverá sobre a família Staffen (de quem também sou descendente remoto, ainda nos tempos da Boêmia) e a família Schuhmacher, que atuou na Ceramarte em Rio Negrinho; Flávio Pruess, de Blumenau, que irá escrever sobre a família Prüss; Cristian Luis Hruschka, que falará sobre os Hümmelgen e Hruschka; além deste blogueiro, que irá falar sobre Fendrich, Zipperer e Roesler.

A iniciativa é uma ótima oportunidade para que as famílias da região sejam representadas em um publicação que deverá virar referência e fonte de consulta para as gerações posteriores.  

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Em 1963, Arno Fendrich se queixava: o teatro estava sendo desbancado pelo cinema, e o cinema pela televisão. E o governo brasileiro tinha coisas mais importantes para pensar do que o teatro. Situação muito diferente daquela que acontecia em Roma, Nova York, Paris e Londres. Nesses lugares, o teatro ainda rendia – e rendia muito. Mas no Brasil, além de não auxiliar, o Governo ainda tirava aquilo que o teatro havia conquistado – negava-se apoio a um movimento de educação e cultura.

Uma comparação simples e real: nos grandes centros europeus, o teatro era uma grande magazine, caminhando a passos de gigante. No nosso país, o teatro era uma lojinha. E o povo ou governo que não apóia o teatro está morto – no mínimo moribundo. Arno segue essa linha até falar das dificuldades com o seu grupo de teatro em São Bento. Em todas as apresentações, houve muita gente, muito movimento, muito movimento – e seria maior se houvesse dinheiro, muito dinheiro, algum dinheiro, pouco dinheiro.

Ora, estamos falando da melhor época para o teatro na história da cidade. Não sei em que pé está a situação hoje. Sei apenas que, em 1963, Arno terminava de forma contundente: “Terra sem teatro, é sertão sem chuva”.

Teria a seca chegado a São Bento do Sul?

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Frederico Fendrich, o filho, nasceu em São Bento do Sul no dia 18.09.1881, filho de Friedrich Fendrich e Catharina Zipperer. Foi batizado no dia seguinte, tendo como padrinhos seus tios Josef Zipperer e Anna Maria Pscheidt. Com seu pai, aprendeu o ofício de sapateiro, e quando o velho Friedrich faleceu, em 1906, foi ele que tomou conta da sapataria, conduzindo-a até falecer.

Foi casado em São Bento do Sul no dia 23.09.1908 com Anna Roesler, filha de Johann Rössler e Amalia Preussler, com a qual teve 14 filhos, sendo alguns natimortos ou que faleceram pequenos. Para superar as dificuldades, além da sapataria, Frederico adquiriu uma pequena lavoura no interior, criando também gado e suínos. Por várias vezes, carregava de calçados uma carroça e saia pelas casas de negócio do interior para trocar por roupas e alimentos.

Foi membro da Sociedade de Atiradores de São Bento do Sul, e desde 1899 fez parte da Sociedade Auxiliadora Austro-húngara, a qual fora presidida por seu pai. Em 1915, suplente de vereador, tendo posteriormente assumido e exercido o cargo de 2º secretário entre os vereadores. Na década de 20, também teria sido suplente e sub-delegado de policia.

Também foi o idealizador da primeira carroça exclusivamente fúnebre de São Bento do Sul, tendo sido, por anos, o próprio condutor dos enterros. Por quase toda a sua vida, também conduzia casamentos com um trole de sua propriedade. Na 2ª Guerra Mundial, vendo o problema da falta de gasolina, colocou seu trole à disposição, na Praça, como táxi.  Com outras carroças, fazia fretes, levando tijolos, areia e outros matérias para construção.

Todos esses afazeres não impediam que se dedicasse à Sapataria Fendrich, que chegou a contar com 10 funcionários. Como a sapataria crescia, Frederico Fendrich anexou a ela uma loja de calçados, que teria sido a primeira em São Bento do Sul – e por muito tempo foi a única.

Nas horas de folga, gostava de jogos de cartas. Fã de música, tomou parte no coral da Igreja Católica, no qual esteve por mais de 40 anos, e no Coral da Sociedade Beneficente Operária, sendo o 1º baixo. Dessa Sociedade, também participou da diretoria. Frederico também foi homem de ótima memória, deixando valiosas informações históricas a todos que lhe perguntavam sobre acontecimentos do passado de São Bento do Sul – característica que foi herdada pelo seu filho Herbert Alfredo Fendrich, falecido há pouco tempo.

Depois de poucos dias enfermo, veio a falecer no dia 25.05.1947. Consta que seu sepultamento foi um dos maiores da época, tendo as duas igrejas locais tocado os seus sinos em sinal de reconhecimento e homenagem ao falecido. O cortejo fúnebre seguiu para o Cemitério Municipal e foi acompanhado pelas melodias da Banda Treml. Frederico está sepultado no mesmo túmulo de seu pai, onde também seria sepultada, 21 anos depois, a sua esposa Anna Roesler. No ano de 1960, Frederico Fendrich foi homenageado com o nome de uma das ruas da cidade, localizada ao lado da atual Sociedade Literária.

Em meio aos arquivos de meu avô, encontrei uma pequena poesia – possivelmente feita por ele – em homenagem a Frederico Fendrich, e que foi lida por Mário Melo, da Rádio Timbira, no dia 23.06.1947. Ei-la:

 

Morrestes, e deixastes a terra que amava

O berço de teus filhos a balouçar sereno

Mas seguistes para terra verdadeiramente tua

O túmulo dos que seguem a “Cristo Nazareno”

 

Deixastes a teus filhos lágrimas perpétuas

Herança do amor de um pai bondoso

À tua esposa, um soluçar amargo

Pela saudade de um querido esposo

 

Morrestes sim! Mas lá nas alturas

Onde há mais vida, doçura e amor

Está tua alma para a “Vida Eterna”

Junto aos anjos de “NOSSO SENHOR”

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