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Posts Tagged ‘Fendrich’

Por muito tempo acreditou-se, com base inclusive nos livros de história de São Bento, que o sapateiro e professor Friedrich/Frederico Fendrich fosse natural de Viena. É justamente essa a origem apontada para ele na lista de passageiros do barco Alert, que o trouxe ao Brasil em 1875.  Sabíamos inclusive que havia sido na capital austríaca que ele havia aprendido o ofício de sapateiro, e lá também teria conseguido uma certa cultura que o distinguiria a ponto de ser improvisado como professor  nos primeiros anos de São Bento. Mas agora sabemos que não foi lá que nasceu.

E sabemos porque o próprio Fendrich afirmou em registro de batismo ter nascido num lugar chamado Lomnitz, na Boêmia. Há mais de uma aldeia com esse nome na República Tcheca, país que abriga o atual território da Boêmia, mas imagino que agora já somos capazes de afirmar que Friedrich Fendrich nasceu na atual cidade de Lomnice nad Popelkou.

Dois mau-entendidos desfeitos

Por um acaso providencial, o registro de batismo em 1880 de Amália Josefina Fendrich, filha de Frederico, informa mais do  que Lomnitz como a cidade natal de seu pai: diz também perto de onde ela ficava. É de se concluir que também àquela época havia mais de uma Lomnitz na Boêmia, na época pertencente ao Império Austro-húngaro, e então o velho Fendrich teve a intenção de especificar ao Padre Carlos Boegershausen de qual delas exatamente ele vinha.  O padre ouviu e anotou: “Lomnitz, perto de…”. Aí entrou o primeiro mau-entendido, e que foi de nossa parte.

Ainda sem ter tido acesso aos livros de batismo da Igreja Católica de São Bento, fui informado de que o registro dizia “perto de Hochin”. Estive tão encantado por essa revelação do lugar de origem de Frederico Fendrich e certo da sua veracidade que mesmo agora, quando o acesso a esses livros é bastante facilitado,  sequer havia me ocorrido a necessidade de conferir o que estava escrito. E com essas informações fiz pesquisas e fui atraído por pistas falsas, que quase me levaram a aceitar Lomnice nad Luznici, no sul da Boêmia, como aldeia natal dos Fendrich.

Mas hoje, enquanto eu fazia um trabalho alheio à minha família, catalogando todos os batizados antigos da cidade, topei com o registro da Amália Josefina, e então pude perceber: não estava escrito Hochin.

Basta reparar na grande diferença existente entre o começo da suposta palavra Hochin e a letra H inicial utilizada coincidentemente logo no registro abaixo, que trata do batizado de uma Hermina:

Não sendo um H, a primeira coisa que me ocorreu foi que seria um I seguido de T, o que transformaria a palavra em Itochin, um nome praticamente japonês e absolutamente inexistente na Boêmia antiga e na atual República Tcheca. Reparei então que o suposto O da palavra deveria ser, na verdade, um S, uma vez que não estava ligado à letra seguinte – coisa que seria bem natural no caso de um O e bem improvável no caso de um S (observe a palavra “nascida”). Formei então uma nova palavra: “Itschin”. Aí entrou o outro mau-entendido que, felizmente, não foi meu, mas do padre.

Isso porque tudo leva a crer que tenha ouvido mal o nome dito por Fendrich, que na verdade falou Gitschin. O simples acréscimo do G inicial é capaz de resolver o mistério do local de origem, pois a atual cidade de Lomnice nad Popelkou, no norte da Boêmia, foi conhecida também como Lomnitz bei Gitschin, pelo menos até 1896. É isso que diz o Wikipedia e também é isso que mostra este selo aparentemente de 1859:

A aldeia identificada

A conclusão de que os Fendrich tem origem em Lomnitz nad Popelkou encontra respaldo inclusive na obra “Bayer in Brasilien”, escrita pelo alemão Josef Blau com base nas informações a ele repassadas principalmente por Jorge Zipperer – sobrinho de Friedrich Fendrich e que o conheceu até os seus 26 anos. Isso porque na lista com 496 lotes apresentada por Blau há também a informação sobre a origem de cada um dos seus proprietários. Nela Fendrich aparece como sendo da “Nordböhmen”, ou seja, do norte da Boêmia. É exatamente a região da Boêmia em que fica Lomnitz nad Popelkou, bem ao contrário de Lomnitz nad Luznici, a pista anterior, que ficava ao sul.

Lomnitz nad Popelkou tem apenas cerca de 6 mil habitantes. Está a 83 km da capital Praga. Fica no distrito de Semily e na região de Liberec. Há algum tempo os registros eclesiásticos de Liberec estão disponíveis no Family Search, mas a princípio ainda não estão os da região e os da época do nosso interesse. Mesmo assim, a simples descoberta da aldeia direciona os esforços de pesquisa para a região e aumentam as possibilidades de desvendar alguns outros mistérios envolvendo a família Fendrich.

Como os Fendrich foram parar lá?

Até então, ninguém parece questionar a origem do sobrenome Fendrich como sendo a Áustria. Inclusive, até hoje é possível encontrar pessoas portando o sobrenome em, vejam só, Viena. Admitindo que isso seja verdade, em algum momento alguém da família Fendrich parece ter migrado para regiões distantes como a Boêmia. Os motivos e a época dessa mudança ainda são absolutamente desconhecidos. Também não sabemos quanto tempo houve entre a migração para a Boêmia e a volta de Frederico Fendrich ao provável local de origem da família – e também não sabemos ainda os motivos para isso, que podem envolver parentes ou ser meramente profissional.

O interessante é que ainda hoje existem famílias Fendrych, com Y mesmo, habitando exatamente a cidade de Lomnice nad Popelkou. Conversei há algum tempo com um deles, mas infelizmente eles não tem informações sobre o passado da sua família. Como confirmamos que a família Fendrich de São Bento tem origem nessa mesma cidade, e como o sobrenome não é comum, só uma improvável coincidência faria com que eles não fossem do mesmo ramo. Assim, o que se imagina é que, embora Friedrich Fendrich tenha partido para Viena, e de lá para o Brasil, outros membros da família Fendrich permaneceram em Lomnitz, e lá tiveram descendentes, dos quais alguns portam o sobrenome em nossos dias.

Ainda há muito mais para descobrir sobre a origem dos Fendrich, mas a identificação exata do seu local de origem representa um avanço fabuloso na biografia da família e um impulso para que conquistas tão preciosas como essa possam vir à tona.

Abaixo, posto algumas fotografias de Lomnice nad Popelkou, conforme pude coletar através do Google Earth:

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O amigo Marcio Brosowsky, músico da Banda Treml, disponibilizou há algum tempo no Youtube a gravação de uma retreta feita em São Bento do Sul no final dos anos 80.  Desde os anos 40, as retretas acontecem no coreto da praça Getúlio Vargas entre os meses de janeiro e março. Brosowsky cita os músicos Otto Roesler Filho, Harald Bollmann, Bubi Grossl, Lauro Muhlbauer, Aldo Denk, João Galkowski, Herbert Fendrich e Fuhrmann entre aqueles que aparecem no vídeo e que já são falecidos.

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Esse é um trecho do título Fendrich, umas das famílias estudadas na minha Genealogia Boêmia de São Bento do Sul ainda inédita. Se você for membro da família Fendrich, entre em contato para trocarmos informações e ter seu nome incluído no trabalho.

Fendrich

FRIEDRICH FENDRICH, sapateiro, primeiro professor da sede de São Bento do Sul, presidente da Sociedade Auxiliadora Austro-húngara. Nasceu em Lomnitz, na Boêmia, no dia 24.04.1843. Casou-se por volta de 1873 em Viena, para onde havia se mudado em data incerta, com Catharina Zipperer, nascida em Flecken, na Boêmia, no dia 08.07.1845, filha de Anton Zipperer e Elisabeth Mischeck, neta paterna de Jakob Zipperer e Theresia Bohmann, e neta materna de Thomas Mischeck e Barbara Greil. Catharina Zipperer faleceu no dia 18.12.1905 (3F-149v), e seu esposo pouco tempo depois, em 24.01.1906, tendo sido ambos sepultados no Cemitério Municipal de São Bento do Sul. Tiveram a seguinte geração:

 1.1 Hedwiges Fendrich § 1.º

 1.2 Maria Catharina Fendrich § 2.º

1.3 Amália Josefina Fendrich § 3.º

1.4 Frederico Fendrich § 4.º

1.5 José Fendrich § 5.º

1.6 Francisco Fendrich § 6.º

1.7 Rodolfo Fendrich § 7.º

(…)

§ 4.º

1.4 Frederico Fendrich, sapateiro e comerciante, vereador, suplente e subdelegado de Polícia, juiz de paz, membro da Sociedade Auxiliadora Austro-húngara, da Sociedade dos Atiradores de São Bento do Sul, do Coral da Igreja Católica, do Coral e da Diretoria da Sociedade Beneficente Operária, idealizador e condutor da primeira carroça exclusivamente fúnebre da cidade. Tomou conta da sapataria do pai e a conduziu até falecer. Com o crescimento da Sapataria Fendrich, anexou uma loja de calçados, que teria sido a primeira da cidade. Nasceu em São Bento do Sul no dia 18.09.1881 e foi batizado no dia seguinte, tendo como padrinhos seus tios Josef Zipperer e Anna Maria Pscheidt. Casou-se na mesma cidade no dia 23.09.1908 com Anna Roesler, doméstica e doceira, nascida em São Bento do Sul aos 02.04.1891, filha de Johann Rössler, imigrante de Reichnau, e Amalie Preussler, de Grafendorf, neta paterna de Franz Rössler e Antonia Lang e neta materna de Bernard Preussler e Maria Anna Jäger. Frederico Fendrich faleceu no dia 25.05.1947 (3FR-56v) e foi sepultado no Cemitério Municipal de São Bento do Sul, no mesmo túmulo de seu pai. Sua esposa Anna Roesler faleceu em seu próprio domicílio aos 14.06.1968 e foi sepultada no mesmo lugar. Frederico Fendrich recebeu em sua homenagem o nome de uma rua situada ao lado da Sociedade Literária, em frente ao Hotel Urupês, na qual moram descendentes. Ele e sua esposa tiveram a seguinte geração:

 2.1 Alfonso Fendrich, nascido no dia 02.08.1909 em São Bento do Sul e falecido no dia 24.01.1910, tendo sido sepultado no Cemitério Municipal.

2.2 Luiza Fendrich, nascida em 22.09.1911 em São Bento do Sul. Casada no mesmo lugar no dia 23.11.1929 com Lourenço Peng, alfaiate e industriário, nascido em Jaraguá do Sul no dia 17.05.1902, filho de outro Lourenço Peng, falecido em 1912, e de Maria, nascida em 1860 e residente à época em Jaraguá do Sul. Luiza faleceu em São Bento do Sul à 1h15 do dia 01.02.1995. Seu esposo Lourenço faleceu no Hospital Sagrada Família às 14h45 do dia 22.11.1979. Ambos foram sepultados no Cemitério Municipal de São Bento do Sul. O casal residia à Rua Manoel Tavares 56, e teve:

 3.1 Nylsa Wandelina Peng, industriária, nascida em 20.07.1932 em São Bento do Sul, onde faleceu, solteira, em 21.05.1987. Sepultada no Cemitério Municipal.

3.2 Nelson Lourenço Peng, nascido em 28.05.1939 em São Bento do Sul, onde faleceu, solteiro, em 21.09.2001. Sepultado no Cemitério Municipal.

(…)

2.3 Alexandre Fendrich, sapateiro, herdou de seu pai os negócios da Sapataria Fendrich. Nascido em São Bento do Sul em 03.03.1913. Casou-se em primeiras núpcias no dia 02.05.1936, no mesmo lugar, com Catharina Fleith, nascida em Joinville no dia 08.09.1912, filha de José e Paulina Fleith. Catharina faleceu no dia 14.11.1955, tendo sido sepultada no Cemitério Municipal de São Bento do Sul. Viúvo, Alexandre uniu-se a Irmalinda Becker, falecida em São Bento do Sul aos 87 anos no dia 23.06.2010. Alexandre faleceu no Hospital Sagrada Família às 15h15 do dia 03.09.1974 e foi sepultado no Cemitério Municipal. Alexandre teve com Catharina Fleith a filha única:

 3.1 Adi Maria Fendrich, casada com Henrique Alberto Wetter, nascido em 17.10.1945 e falecido em 23.04.1982, sepultado no Cemitério Municipal de São Bento do Sul.

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Embora já tivesse um número razoável de imigrantes, a Colônia de São Bento, como dito, não contava ainda com médicos, professores e igrejas. Essas carências incomodavam os imigrantes, que então começaram a articular protestos e reivindicações à direção da Colônia exigindo as melhorias. Ainda em julho de 1874, menos de um ano depois da criação da Colônia, os imigrantes encaminharam uma petição à Direção em Joinville, na qual faziam uma série de exigências que incluíam a criação de uma escola com subvenção para um professor. Em resposta, o diretor Ottokar Doerffel informou que a Sociedade Colonizadora não se sentia na obrigação de criar uma escola, embora apoiasse a iniciativa (FICKER, 1973).

Protestos também ocorreram em 10 de janeiro de 1875, quando um grupo de colonos de São Bento foi a Joinville apresentar queixas semelhantes à direção da Colônia. Doerffel entendia que o número de moradores em São Bento ainda era reduzido e que essas carências eram inevitáveis no começo de uma povoação. Como resultado, os manifestantes conseguiram o direito de mandar dois imigrantes apresentar suas queixas pessoalmente às autoridades da Corte no Rio de Janeiro. Apenas na metade do ano seguinte a Sociedade Colonizadora receberia um ofício da Corte solicitando um orçamento para as melhorias pretendidas.

Em julho de 1875, quando Friedrich Fendrich chegou a São Bento, as carências ainda eram as mesmas. O problema da falta de assistência religiosa, entretanto, pôde ser amenizado no ano seguinte. O Padre Carlos Boegershausen, de Joinville, encomendou a construção de uma capela em São Bento. Ela foi erguida e ficava próxima à residência dos Fendrich. Era uma capela pequena e rudimentar – Zipperer a comparou ao estábulo onde Jesus nasceu. Naquele lugar, foi celebrada pela primeira vez uma missa em São Bento do Sul, no dia 08 de março de 1876.

Para suprir a ausência de escolas, os colonos decidiram agir por conta própria. Primeiro, era preciso encontrar um professor disposto a ensinar as crianças. A escolha não era das mais fáceis, pois a maior parte daqueles imigrantes era constituída de gente simples e sem muito estudo. Wilhelm Bollmann, ao comentar a escolha dos professores no interior da Colônia de São Bento, escreveu que, em geral, o cargo de professor era assumido por um imigrante mais instruído e letrado, e que “não hesitava em compartilhar da mesma adversidade e dos mesmos rigores criados pelo meio nos seus começos, dispondo-se a desempenhar as funções por poucos milréis mensais” (1923, apud PFEIFFER, 1997, p. 193).

Essas considerações também valem para a escola do centro da Colônia, uma vez que foi o fator instrução que definiu aquele que viria a ser o primeiro professor do lugar. O escolhido foi exatamente Friedrich Fendrich, o qual, tendo recebido certa educação e cultura em Viena, era, na opinião dos colonos, quem melhor estava em condições de tomar para si a responsabilidade de ensinar os filhos dos imigrantes alemães. Fendrich aceitou o convite e então começaram a ser tomadas providências para que a escola entrasse em funcionamento.

Leia também:

Parte I e Parte II 

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O imigrante Anton Zipperer, um dos pioneiros da colonização de São Bento do Sul, veio ao Brasil em 1873 e trouxe consigo a esposa e mais seis filhos. A sua primogênita, chamada Catharina Zipperer, permaneceu na Europa. Acredita-se que, na ocasião, ela já morava em Viena com seu esposo Friedrich Fendrich. A permanência em solo europeu, no entanto, não se prolongou por muito tempo, pois em 1875 Friedrich e Catharina também resolveram tentar a sorte no Brasil. Assim como os Zipperer, os Fendrich se instalaram na atual cidade de São Bento do Sul.

Friedrich Fendrich, o imigrante, era filho de Franz Fendrich e Maria Magdalena Trnka, os últimos desse sobrenome que se tem notícia. Nasceu no dia 24.04.1843 em Lomnitz, perto de Hochin, na Boêmia. Há mais de uma cidade com esse nome na República Tcheca – país que abriga o atual território da Boêmia. A melhor pista aponta para a cidade de Lomnice nad Luznici, antiga Lomnitz, 112 quilômetros ao sul de Praga, perto de Hluboka nad Vitavou, antiga Hosin. Apesar dessa coincidência, o pesquisador tcheco Petr Kalivoda informou que o sobrenome Fendrich não existe nessa região e que, no período de nosso interesse, nunca existiu nas redondezas (KALIVODA, 2008). De qualquer forma, o nome da aldeia de Lomnitz representa um avanço na biografia de Friedrich Fendrich, pois era desconhecido de todos aqueles que escreveram sobre este personagem.

Não é possível precisar a data em que Friedrich Fendrich se mudou para Viena. O cronista Josef Zipperer comenta que Fendrich passou em Viena “toda sua infância e mocidade” (ZIPPERER, 1951, p. 93). Assim sendo, também é de se supor que os pais estivessem com ele. Na capital austríaca, Friedrich aprendeu o ofício de sapateiro. Provavelmente, também foi lá que se casou com Catharina Zipperer, nascida no dia 08.07.1845 em Flecken, na Boêmia, primogênita de Anton Zipperer e Elisabeth Mischeck. Em 03.05.1874, o casal teve a filha Hedwiges, que também iria imigrar ao Brasil no ano seguinte.

Josef Zipperer afirma que as cartas escritas pelos imigrantes pioneiros aos parentes que ficaram na Europa facilitaram a posterior vinda de famílias como os Fendrich, Schadeck, Tschöke e Knittel. Isso porque, nessas cartas, a região era descrita como o verdadeiro “paraíso que o velho Adão nos fez perder” (ZIPPERER, 1951, p. 18). Diziam que a caça e a pesca, ao contrário do que acontecia na Boêmia, podiam ser livremente exercidas, e que não era preciso pagar pelo ensino, e nem contas de médico ou impostos – o que não diziam era que praticamente inexistiam possibilidades de caça e pesca, e que não havia nenhuma escola e nenhum médico que pudessem ser pagos pelos seus serviços.

Não se sabe com que frequência houve esse contato entre os Zipperer e os Fendrich, mas, de alguma maneira, ele realmente existiu. O diretor Ottokar Doerffel, em ofício citado por Ficker (1973), afirma que os Zipperer, tendo conseguido prosperar nos seus terrenos em São Bento, foram à Direção da Colônia para pagar a passagem de parentes que ainda estavam na Europa. Doerffel referia-se a Friedrich Fendrich e sua esposa Catharina Zipperer, o que é possível comprovar através de um documento da Companhia Colonizadora reproduzido no livro de Josef Zipperer (1951). Assim, os Zipperer contribuíram para que também os Fendrich pudessem vir ao Brasil. 

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 A primeira escola da região central de São Bento do Sul ficava no antigo prédio da Caixa Econômica Federal – atual Farmácia do Sesi. Foi construída ao lado da casa de seu primeiro professor, o sapateiro Friedrich (Frederico) Fendrich. Há razões para acreditar que a escola não foi construída em 1875, como sugere o cronista Josef Zipperer, e que inclusive tenha sido posterior à criação da primeira igreja católica da cidade, episódio que aconteceu em março de 1876.

Em primeiro plano, a casa de Friedrich Fendrich, localizada no começo da atual Avenida Argolo. Ao seu lado, a improvisada escola em que Fendrich, primeiro professor do lugar, lecionou entre 1876-1879. Aos fundos, a primeira Igreja de São Bento. Arquivo Histórico Municipal de São Bento do Sul

Isso porque o material usado para construir o prédio escolar foi feito com o rancho abandonado do agrimensor Theodor Ochsz, o qual, segundo documentação oficial citada pelo historiador Carlos Ficker, só foi embora de São Bento em maio de 1876. Esse rancho, localizado na região de Oxford, foi desmontado pelos colonos e trazido nas costas até o centro. Em seguida, montaram-no novamente ao lado da casa de Fendrich. Colocaram-se bancos e estava pronta uma escola.

 A iniciativa dos colonos teve origem na necessidade de que os seus filhos não crescessem como analfabetos e nos insucessos que haviam tido tentando que a Sociedade Colonizadora, em Joinville, providenciasse uma escola para São Bento. De forma improvisada, os imigrantes agiram por conta própria. Escolheram Fendrich como professor porque, entre os rústicos imigrantes, era quem havia tido melhor educação e havia adquirido certa cultura em Viena, cidade em que morava ao imigrar.

Frederico Fendrich (1843-1906), sapateiro de ofício, aceitou a missão de ensinar as crianças na primeira escola da sede de São Bento.

As aulas eram ministradas em alemão, única língua que Fendrich sabia falar – e com forte sotaque vienense. Embora as famílias alemãs fossem a maioria daquelas que habitavam a sede de São Bento, também existiam as polonesas, que se opuseram à nova escola e não mandaram seus filhos para lá. A escola de Fendrich chegou a ter cerca de 30 alunos, cujos pais pagavam uma mensalidade de 500 réis. A Sociedade Colonizadora passou a subvencionar a escola com 1200$000 por ano.

O sustento de Fendrich, no entanto, vinha com seu verdadeiro ofício. O professor ministrava as aulas pela manhã e à tarde entrava em cena o sapateiro. A escola continuou funcionando, embora com intervalos irregulares, até por volta de setembro de 1879. Na ocasião, chegou a São Bento o padre Adalberto de Leliva Bukowski, que assumiu a questão do ensino na Colônia e atraiu para uma nova escola os poloneses que Fendrich não podia ensinar.

Foi, portanto, por cerca de três anos que funcionou a primeira escola do centro de São Bento. O reconhecimento pelos esforços de Frederico Fendrich no seu cargo improvisado de professor e o seu pioneirismo na atividade fizeram com que fosse homenageado, anos depois, com o nome de um estabelecimento de ensino no bairro de Serra Alta. Muito se falou sobre a possível construção de um busto em sua homenagem no local da primeira escola, mas nada foi feito na prática até hoje.

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Friedrich Fendrich, ancestral de todos os Fendrich da região de São Bento do Sul, não nasceu em Viena – embora essa história venha sido repetida até hoje por alguns historiadores locais. Já tivemos a oportunidade de especular os motivos que o levaram a se mudar de Lomnitz, sua aldeia natal na Boêmia, para a charmosa capital austríaca. Também já desmentimos a história contada por José Kormann de que a esposa de Fendrich havia assistido ao incêndio do Teatro Ringtheater, em Viena. E, por fim, também já cogitamos a maneira com que Fendrich e Catharina Zipperer se conheceram na cidade.

Ferroviária no sul de Viena. A foto teria sido tirada no ano de 1875. Foi exatamente nesse ano que a família de Friedrich Fendrich imigrou ao Brasil.

Temos ocasião agora de falar sobre a existência de outros Fendrich em Viena, evidenciada pelo seu mais ilustre representante nos dias de hoje: o cantor, ator e apresentador Rainhard Fendrich, personagem de destacada popularidade na Áustria. Não significa, a princípio, que ele venha do mesmo ramo que os Fendrich brasileiros, apesar da coincidência de ser natural de Viena. Ao mesmo tempo, também não se descarta essa possibilidade: sabemos muito pouco sobre a família até agora.

Já encontrei citações de que o sobrenome Fendrich é, em sua origem, austríaco, o que naturalmente explicaria a presença de pessoas com esse sobrenome em Viena. A primeira “versão” do nome é “Fähnrich”, que vem do alemão medieval e representa o oficial mais jovem do regimento e que carrega a sua bandeira (Fähne) de identificação. Corresponde ao nosso cadete, alferes ou guarda-marinha. As diferentes formas de escrever o sobrenome sugerem a existência de famílias diversas. Rainhard Fendrich, no entanto, é da mesma região e tem o sobrenome com a mesma grafia.

Rainhard Fendrich, nascido em Viena, é um dos mais famosos astros pop da Áustria.

Por motivos ignorados, nossos Fendrich se afastaram da Áustria e migraram para a Boêmia. Não é possível dizer quanto tempo estiveram lá. De qualquer forma, a ida de Friedrich Fendrich para Viena representa uma volta da família ao seu provável local de origem. Isso nos leva a cogitar que a migração para a Boêmia fosse recente e que ainda houvesse contatos familiares em Viena. Como cremos que Friedrich foi para a Áustria sem os pais, essa hipótese ganha força. Talvez tenha se mudado para a casa de parentes.

Desconhecemos, até hoje, que Friedrich tenha tido irmãos. Se os teve, não vieram ao Brasil – e assim sendo, deixaram descendentes possivelmente também na capital austríaca. Não é de todo improvável que Viena tenha um único ramo familiar de Fendrich e que ele também inclua o Rainhard Fendrich. São hipóteses que, por enquanto, ainda não podem ser confirmadas.

A ponte Aspernbrücke, em 1875. Viena conta até hoje com membros da família Fendrich. É possível que Friedrich Fendrich tenha encontrado parentes ao ir para lá.

Rainhard Fendrich – Nasceu em Viena no dia 27/02/1955. É um dos mais bem sucedidos astros pop austríacos. Apesar do sucesso em seu país, é pouco conhecido nos outros países que falam alemão, e praticamente desconhecido nos que não falam. Uma de suas canções mais populares no país é “I am from Austria”, de 1990. Atuou em musicais na cidade de Viena e participou de vários filmes austríacos e alemães. Foi apresentador de alguns programas de TV, incluindo o “Show do Milhão” da Áustria. Recebeu, inclusive, premiação de melhor apresentador da década de 90 em seu país.

Fendrich foi casado entre 1984-2004 com Andrea Sator. O divórcio rendeu considerável publicidade. O casal teve os filhos Florian e Lucas Fendrich, que tentou a carreira musical, mas ainda sem muito sucesso. Em 2006, Rainhard foi pego pela polícia de Viena comprando cocaína. Ele admitiu que usava havia 15 anos e foi imediatamente para um clínica de recuperação de drogados – apesar disso, não se livrou de pagar uma multa. O mais interessante é que tudo isso não teve nenhuma influência visível na sua popularidade.

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