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Posts Tagged ‘João Filgueiras de Camargo’

Aproveitando que a Biblioteca Nacional disponibilizou em seu site diversos periódicos de todo o Brasil, encontrei a seguinte nota no veículo “Regeneração”, publicação liberal de Santa Catarina, no dia 17.04.1885:

sociedadeO historiador Carlos Ficker nada menciona a respeito dessa associação, e pela nota sequer ficamos sabendo de que forma exatamente ela atuava. No entanto, Ficker menciona que no começo de 1885 houve o desentendimento entre o Dr. Wolff e Francisco Bueno Franco, presidente do Conselho Municipal, que acabou com a suspensão de Wolff das sessões legislativas. Na mesma ocasião, João Filgueiras de Camargo teria protestado contra a situação do arquivo do Conselho, tendo em seguida se retirado do recinto. É possível que houvesse relação com o episódio e que fosse uma associação eminentemente política. Wolff e Filgueiras viriam a se desentender ideologicamente mais pra frente.

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João Filgueiras de Camargo foi um dos personagens mais interessantes da história de São Bento do Sul. Sua atuação política como líder republicano foi marcante na região. O cronista Josef Zipperer destaca sua atuação na Revolução Federalista, quando impediu que uma tragédia maior acontecesse em São Bento.

Se fossemos citar um único nome entre os tantos brasileiros que moravam na região no começo da colonização, ele provavelmente seria o mais lembrado. No entanto, só existe até hoje uma mísera ruazinha em sua homenagem. Na verdade, isso não é muito de se espantar, pois durante todos esses anos a ocupação  brasileira de São Bento tem sido ignorada ou, no máximo, tratada de forma bastante superficial, o que é realmente lamentável e prejudicial para o conhecimento do nosso passado

Aqui faço um resumo de todas as informações encontradas sobre ele, principalmente no livro de Carlos Ficker “São Bento do Sul – Subsídios Para a Sua História”. Em seguida cito os seus antepassados diretos, conforme descobri em livros de registros paroquiais em São José dos Pinhais e Curitiba. Também descendo do casal nº 3, Bernardina Maria Filgueira e Antônio Calisto de Camargo, de modo que os ancestrais desses também são os meus.


I) JOÃO FILGUEIRAS DE CAMARGO
, Prefeito Municipal, Conselheiro Municipal, Juiz de Paz, Líder do Movimento Republicano de São Bento, interventor dos são-bentenses durante os conflitos locais da Revolução Federalista em 1893, comerciante de erva-mate, e um dos fundadores da Sociedade Literária São Bento. Nascido em São José dos Pinhais no dia 12.05.1848, foi batizado no mesmo lugar em 01.06.1848.

João Filgueiras de Camargo foi também sócio do Lese und Kultur Verem “Glueckhauf” (Sociedade Cultural “Boa Fortuna”), clube fundado no primeiro domingo de agosto de 1881, no Km. 80 da Dona Francisca, com objetivos recreativos, culturais e instrutivos em assuntos de agricultura. Os 24 sócios reuniam-se semanalmente no salão do vendista Franz Neumann.

Foi em 03 de setembro de 1881, em uma reunião da sociedade, a qual consta no primeiro livro de atas, que João Filgueiras de Camargo foi aceito como sócio. A sociedade buscava promover o desenvolvimento de todos os setores da agricultura, ajudando os novos imigrantes, aconselhando-os, importando da Europa sementes de trigo, centeio, verduras, etc. Além disso, nas reuniões também eram comentados assuntos dos jornais da época, em especial do “Kolonie Zeitung”, de Joinville, e “Gartenlaube”, da Alemanha, bem como outros jornais especializados.

Para comemorar o aniversário da sociedade, o primeiro domingo de agosto era dedicado sempre à uma reunião festiva, com a presença dos familiares e animados por músicas, danças, e divertimentos variados. Essa sociedade, fundada por Martin Meister, Anton Friedrich e Johann Neumann é tida como a primeira na área colonial de São Bento e durou até julho de 1896, quando, por motivos políticos, as atividades da organização cessaram.

João Filgueiras de Camargo também figura entre os fundadores da Sociedade Literária São Bento, criada em outubro de 1881, e existente até os nossos dias. Em 28.10.1883, João foi eleito Juiz de Paz, tendo recebido 3 votos, a mesma quantidade que Augusto Henning e João Antônio da Rocha, os outros dois juizes eleitos.

João Filgueiras de Camargo foi um dos fundadores da Sociedade Literária, fundada em 1881 e que ainda existe em São Bento do Sul.

Em 30.01.1884, a Câmara Municipal de São Bento foi oficialmente instalada, conforme ofício enviado à Presidência da Província, no qual João Filgueiras de Camargo assina como um dos Conselheiros Municipais, cargo que equivalia à função de vereador. Nos dias 11 e 12 daquele mesmo mês, Filgueiras de Camargo e os demais conselheiros estiveram em Joinville, onde, diante da Câmara Municipal daquele lugar, prestaram juramento de fidelidade.

No ano seguinte, em companhia ao vereador Augusto Henning, João Filgueiras de Camargo abandou o recinto da Câmara Municipal, em sinal de protesto contra a desordem nos arquivos municipais, o que fazia com que vários conselheiros levassem documentos para suas residências.

Em outubro de 1885, o jornal “Constitucional”, veículo conservador e anti-liberal publicado em Joinville, destacava a atuação do “nosso estimado amigo Sr. João Filgueiras de Camargo”, que, fazendo do seu prestígio e grande influência, conseguiu com que a Estrada dos Fragosos, em São Bento, pudesse ter um notável melhoramento. O semanário comentava que foram 100 os trabalhadores que atuaram na melhoria da Estrada de cerca de duas léguas, “que era antes um verdadeiro precipício”, e que o resultado da obra se mostrou excelente. A Estrada dos Fragoso começava no Km. 83 da Estrada Dona Francisca e terminava, justamente, no povoado Fragoso, à margem do Rio Negro, local onde residiam importantes criadores e lavradores.

Em 12.10.1886 aconteceu nova eleição para Juiz de Paz em São Bento do Sul, tendo sido João Filgueiras de Camargo o mais votado, tendo tomado posse a 27.01.1887 no Paço do Edifício Municipal, após ter prestado juramento.  Em 1887, com o falecimento de Argemiro Loyola, a viúva Targina Celestina de Oliveira aceitou João Filgueiras de Camargo como sócio de sua firma comercial de erva-mate em Oxford, e que, tomando para si o ativo e passivo da extinta firma, passou a ter o novo nome de “João Filgueiras de Camargo & Cia”, tendo sido uma das mais importantes da região.

No mesmo ano, em 26 de junho, João Filgueiras de Camargo foi um dos signatários do Manifesto Republicano de São Bento, o qual defendia que nenhum dos partidos monárquicos poderiam trazer felicidade e progresso ao Brasil, razão pela qual, daquela data em diante, os signatários declaravam-se filiados ao Partido Republicano Federativo de São Bento, o único que, para eles, poderia levantar o país do abatimento em que se encontrava.

Na qualidade de Presidente da Câmara, que equivalia ao cargo de Prefeito Municipal, tendo sucedido o Dr. Philipp Maria Wolff em 1888, João Filgueiras de Camargo, vendo que não havia policiamento eficaz que executasse as ordens e sentenças das autoridades, no que dizia respeito às desordens que estava ocorrendo no município, foi o primeiro a advertir o Governo Provincial. Houve casos de infratores que não puderam ser chamados à responsabilidade de seus atos porque não havia meios legais para tal, uma vez que a Câmara Municipal de São Bento ainda não tinha as suas Posturas aprovadas pela Presidência da Província. Isso só aconteceu em 18.10.1888, quando as Posturas foram aprovadas pelo Coronel Augusto Fausto de Souza, presidente da Província, e aprovadas pela Assembleia Legislativa Provincial.

Em agosto de 1888, houve nova eleição para vereadores de São Bento. João Filgueiras de Camargo foi uma dos mesários da eleição que ocorreu no dia 12 daquele mês. Os resultados da eleição fizeram com que São Bento tivesse a primeira Câmara totalmente Republicana do Brasil. Levado pelo entusiasmo da vitória do Partido Republicano, João Filgueiras de Camargo lançou um manifesto nos últimos dias de 1888, no qual considerara que a Constituição Política do Império não era suficiente às liberdades e interesses do povo brasileiro, e, assim sendo, deveria ser levado por meio de petição à Assembleia Legislativa a necessidade de uma nova Constituição. A Assembleia, então, deveria dirigir uma petição ao parlamento, para que os novos deputados tivessem poderes para formar uma Assembleia Constituinte, além de fazer uma consulta ao povo sobre a conveniência em continuar com a dinastia após a morte do Imperador.

O Clube Republicano de São Bento, sob a chefia de João Filgueiras de Camargo, conseguia aumentar cada vez mais o número de sócios e, em 18.11.1889, três dias após a Proclamação da República, os membros se reuniram na casa de Carlos Stüber, em Lençol, para discutir o desenrolar de acontecimentos e formular as novas estratégias de ação. O secretário Líbero Guimarães, falando sobre os recentes acontecimentos no Rio de Janeiro, apelou para que fosse criada uma comissão para mandar a ordem em São Bento. Essa comissão foi formada por João Filgueiras de Camargo, Francisco Antônio Maximiano, Francisco Bueno Franco e Francisco Gery Kamienski.

Com a elevação de São Bento para Comarca, por decreto de 12.08.1891, ocorreu nova eleição em 30.08.1891, dessa vez para Intendentes e Superintendentes, além dos Juízes de Paz. João Filgueiras de Camargo foi eleito novamente um dos Juízes de Paz.

Com a vitória de Marechal Floriano, foi acusado de ser anti-republicano, apesar de pioneiro do republicanismo em São Bento.

Participou da revolução federalista de 1893 ao lado dos maragatos gaúchos. Quando os revolucionários adentraram em São Bento, em 05.11.1893, e se depararam com uma formação de homens armados, dispararam contra eles, o que resultou na morte do cidadão Luiz Köhler.

Filgueiras de Camargo, na condição de Chefe Federalista da cidade, explicou ao comandante que aquele agrupamento objetivava apenas a proteção de São Bento diante de bandoleiros, sem que apoiassem um ou outro lado do conflito. A ação de Filgueiras impediu que aquele dia “não fosse de consequências ainda mais funestas” (ZIPPERER, 1954, p. 65), uma vez que, “sem a pronta intervenção desse cidadão, muitos teriam pago com a vida a sua imprudência” (id, p.69).

Morava no Mato Preto, numa casa com estilo europeu, e tinha boas relações com os imigrantes alemães. Faleceu assassinado às 21h de 25.05.1897, enquanto tranquilamente tomava chimarrão nos fundos de sua casa. Na época se falou em crime político, mas com o tempo, o caso ganhou conotações de crime passional. A esposa de João, durante o inquérito, acusou formalmente seu sobrinho João Elias Fragoso.

Sua esposa era Gertrudes Gomes, filha de Antônio Gomes de Camargo e sua esposa Maria Ferreira, tendo os dois se casado ainda em São José dos Pinhais no dia 20.02.1870, com dispensa no impedimento de consanguinidade no segundo grau da linha lateral, o que mostrava que os contraentes eram primos.

João Filgueiras de Camargo e sua esposa não tiveram descendência.

Pfeiffer (1999) afirma equivocadamente que Filgueiras de Camargo era casado com Maria Soares Fragoso.

II) JOAQUIM CALISTO DE CAMARGO, batizado em Curitiba no dia 26.10.1801, tendo como padrinhos os avós maternos. Casou-se com Maria Gaspar e, viúvo dessa, casou-se novamente, em São José dos Pinhais, no dia 22.08.1835 com Anna Joaquina de Camargo, batizada naquela cidade em 12.10.1813, filha de Lourenço Gomes de Oliveira, já falecido na ocasião do casamento, e Maria Joaquina, exposta na casa de João da Rocha Loures; neta paterna de Ignácio Gomes, de Paranaguá, e Anna Gomes, de Parnaíba. Foram testemunhas o Sargento-Mór Francisco de Paula Xavier, de Curitiba, e o Alferes Manoel Álvares Pereira.

III) BERNARDINA MARIA FILGUEIRA, batizada em São José dos Pinhais no dia 02.07.1782 (1B-63), como filha natural, e casada em Curitiba no dia 15.01.1799 com Antônio Calisto de Camargo, do mesmo lugar, filho de pais incógnitos, por ter sido enjeitado.

IV) JOAQUIM FRANCISCO FILGUEIRA, natural de São Miguel da Terra Firme, atual cidade de Biguaçu, e que foi casado em Curitiba no dia 07.02.1786 (4C-118) com Gertrudes Maria do Prado de Albuquerque, nascida por volta de 1865 e falecida em São José dos Pinhais no dia 24.11.1803, sendo ela filha de Paulo Moreira de Albuquerque e Antônia Rodrigues do Prado, neta paterna de José de Albuquerque e Joanna Leme da Silva, e neta materna de Manoel Pinto dos Reis e Gertrudes Nunes de Jesus.

V) JOÃO FILGUEIRA DA SILVA, natural de São João do Caraí, atual cidade de Niterói, casado em Desterro no dia 01.02.1751 com Josepha Maria da Assunção, natural da Freguesia do Espírito Santo, na Ilha Terceira, filha de Manoel Gomes e Bárbara Lucas.

VI) IGNÁCIO MOREIRA DA SILVA, casada com Izabel Filgueiras, sobre os quais ainda não se tem outras informações.

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No dia 30 de agosto de 1891 houve uma eleição em São Bento do Sul para o cargo de Superintendente (equivalente ao atual Prefeito), intendentes municipais (os vereadores) e juízes de paz (com eleição específica para Campo Alegre).  Ao contrário do que normalmente acontecia, as eleições transcorreram pacificamente.

A apuração ocorreu apenas no dia 16 de setembro e revelou o seguinte resultado (os eleitos estão sublinhados, com exceção dos juízes de Campo Alegre, que não sabemos quantos vagas tinham):

SUPERINTENDENTE 

Francisco da Silva Sinks: 368 votos

Amando Jürgensen: 67 votos

INTENDENTE MUNICIPAL

Francisco Antônio Maximiano: 430 votos

João Machado Pereira: 367 votos

Philipp Maria Wolff: 362 votos

Agostinho Ribeiro da Silva: 361 votos

Líbero Guimarães: 355 votos

Jorge Schlemm: 73 votos

Aníbal Cezar da Rocha: 69 votos

Ernesto Mendel: 67 votos

Luiz  Scholz: 67 votos

Francisco José Ribeiro: 18 votos

Amando Jürgensen: 4 votos

João Filgueiras de Camargo: 1 voto

Francisco Bueno Franco: 1 voto

Rodolpho Klaumann: 1 voto

Frederico Rathunde: 1 voto

JUIZ DE PAZ – SÃO BENTO

João Filgueiras de Camargo: 281 votos

Francisco Gery Kamienski: 278 votos

José Linzmeyer: 277 votos

Jorge Schlemm: 228 votos

David Gaspar dos Santos Lima: 69 votos

Otto Bernardo Krause: 67 votos

Ignácio Fischer: 65 votos

Agostinho Ribeiro da Silva: 64 votos

JUIZ DE PAZ – CAMPO ALEGRE

José Affonso Ayres Cubas: 86 votos

João Augusto Schröder: 86 votos

Antônio Pedro de Carvalho Lisboa: 52 votos

Antônio Felisbino Lamim: 49 votos

Francisco Teixeira de Freitas: 42 votos

Francisco Carvalho de Assis: 23 votos

Olympio Nóbrega de Oliveira: 8 votos

Francisco Bueno Franco: 2 votos

Francisco Simões de Salles: 1 voto

Pedro Pereira Júnior: 1 voto

Manoel Cardoso Ferreira: 1 voto

Joaquim Narciso Soares: 1 voto

Júlio Richter: 1 voto

Essa eleição acabou sendo anulada por decreto, como todas as demais ocorridas no estado naquele dia. Os eleitos  tiveram que entregar o poder para a Junta Provisória Governativa, por conta das transformações políticas no Brasil e em Santa Catarina. A Junta dissolveu a Câmara e nomeou uma outra.
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Nessa câmara nomeada, reunida pela primeira vez em São Bento aos 23.01.1892, estavam: Francisco José Ribeiro, Presidente da Intendência, que não havia conseguido se eleger; Jorge Schlemm, que havia sido eleito juiz de paz; Paulo Timotheo Wielewski, que sequer aparecia na última votação; Olympio Nóbrega de Oliveira e Agostinho Ribeiro da Silva, que haviam concorrido a juiz de paz e que viraram Intendentes Conselheiros de São Bento.
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Naturalmente, essa transição não foi nada pacífica. Wolff, Líbero Guimarães e Maximiano resistiram por um bom tempo até entregar a chave e os arquivos da Câmara.
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A apuração dessa eleição, ainda que anulada, mostra o envolvimento de ao menos dois boêmios na política local: José Linzmeyer, que havia sido inclusive eleito juiz de paz, e Ignácio Fischer, que não conseguiu ser eleito para o mesmo cargo. Em geral, comenta-se que os imigrantes não tinham lá muito interesse na política, o que é bem visível se repararmos nos nomes das figuras que ocuparam cargos nos primeiros anos de São Bento. Quando havia imigrantes alemães, até então, nenhum deles tinha a origem boêmia, que foi a mais comum em São Bento e a qual pertenciam Linzmeyer e Fischer.
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Também chama a atenção a destacada votação de Francisco Antônio Maximiano, outrora visto como um simples intruso e perturbador do sossego alheio de São Bento, e especialmente dos imigrantes.

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Albert Malschitzky era o presidente da Câmara Municipal de São Bento naquele turbulento ano de 1897. A agitação política tomava conta da cidade que, em maio, assistiu perplexa ao assassinato do comerciante e lider republicano João Filgueiras de Camargo. Malschitzky, na sua qualidade de Presidente de Câmara, considerou reprováveis algumas atitudes que o Capitão Joaquim da Silva Dias estava tendo enquanto Promotor Público de Campo Alegre. Decidiu então mandar um telegrama pedindo a sua exoneração do cargo, “a bem da ordem e da moralidade”. Essa teria sido a principal causa de seu assassinato, e ele poderia ter sido apenas o primeiro de uma série de surras e mortes que, segundo testemunhas, culminariam na tomada do poder pelo dito Capitão Joaquim da Silva Dias.

O assunto não foi, ainda, devidamente explorado pela historiografia local. Tenho consultado edições antigas do jornal Legalidade, e fico admirado com as notícias referentes aos acontecimentos daquela época. Um clima de medo dominava a cidade, a julgar pelas expressões do jornal.  Descoberto o principal suspeito, a indignação dava o tom do periódico. As acusações recaíam sobre gente graúda da região – o prefeito de Campo Alegre, Francisco Bueno Franco, era acusado de ser o braço-direito de Joaquim da Silva Dias. Encontrei até mesmo uma acusação contra meu tetravô Generoso Fragoso de Oliveira – segundo uma testemunha, Joaquim e seus homens se reuniam na casa de Generoso, em Fragosos. Os depoimentos das testemunhas, citados pelo jornal, também são bastante ricos em detalhes.

Comecei há algum tempo a escrever sobre esse assassinato, utilizando, para isso, técnicas do jornalismo literário. Esse é o primeiro capítulo da história:

Entre sete e oito horas daquele sábado, dia 21 de agosto de 1897, o cachorro de Georg Dums, imigrante de Hammern e morador da Estrada Dona Francisca, foi atingido por uma pedrada. Ninguém soube dizer quem havia sido o autor. A agressão deixou o animal muito machucado. “Não conseguiu andar por uma semana”, lamentou Dums. Era um cão “bravio e valente”, segundo o vizinho Carlos Körner. Quando algum estranho se aproximava da vizinhança, era sempre o primeiro a latir – latia antes que os cachorros de Alberto Malschitzky, também morador da Estrada Dona Francisca. E foram essas circunstâncias que chamaram a atenção de Dums e Körner no momento em que tiveram de depor.

Georg Dums já havia se recolhido ao seus aposentos na noite da quarta-feira seguinte, dia 25 de agosto. Era por volta de oito e meia da noite quando, subitamente, ouviu um barulho que parecia ser de dois tiros. Intrigado, debateu com a esposa sobre o que poderia ter sido aquilo. Decidiu então se levantar e verificar pessoalmente. Mal abriu a porta de casa, voltada para a rua, e encontrou o mesmo Körner, seu vizinho. Estava exaltado, e falou com rapidez:

– O Malschitzky… recebeu dois tiros e está quase morto!

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É sabido que o nome  do bairro “Fragosos”, hoje pertencente ao município de Campo Alegre, tem sua razão de ser na pioneira presença de membros da família Fragoso na região. Além de terem sido os primeiros a habitar o lugar, os membros dessa família, vindos da Lapa e de São José dos Pinhais, representavam um bom contingente de pessoas, o que também colaborou para que o local fosse conhecido pelo sobrenome de seus moradores. Os criadores e lavradores do lugar, naquele tempo, eram sempre tratados como “moradores nos Fragosos” – e não “em Fragosos”, como nos nossos dias.

Os membros dessa família, portanto, passaram a se tornar a referência para os habitantes do lugar. Esse não é o único caso nos primórdios de São Bento do Sul e Campo Alegre: havia quem morasse na “Avenca dos Teixeira” ou ainda “nos Carneiros”. De qualquer forma, o único nome familiar que permaneceu até os nossos dias como identificador de uma localidade foi o de Fragosos – nome que hoje é pronunciado com a vogal “o” aberta, ao contrário do que acontece com o sobrenome.

A história contada pelos descendentes dos primeiros Fragoso diz que a família possuía muitas terras e prestígio nas redondezas. Também é comum ouvir (não só de descendentes, mas também de moradores) que o primeiro habitante do lugar foi Generoso Fragoso. Foi também isso que ouvi da minha avó Otília Fragoso, bisneta de Generoso. Não existem registros que nos deem  certeza sobre a época em que Generoso Fragoso chegou à região e quem o acompanhou – e também se houve outros Fragoso habitando o local antes dele. Convém enunciar algumas discussões.

O nome completo de Generoso também se perdeu com o passar dos anos: chamava-se Generoso Fragoso de Oliveira. Natural da Lapa, onde nasceu em 25.05.1845, era filho de Ermenegildo Rodrigues de Oliveira (que levou uma vida marcada por acontecimentos inditosos: foi abandonado ao nascer e morreu precocemente aos 27 anos) e sua esposa Francisca Soares, a qual era filha de Manoel Soares Fragoso e Marciana Maria de Marafigo. O nome “Fragoso” que Generoso portava vinha, assim, de seus ascendentes maternos, enquanto que o esquecido complemento “de Oliveira” vinha do pai, que o adotou por ser um dos sobrenomes da família que lhe acolheu ao nascer.

Antes de chegar à região de São Bento do Sul, Generoso se mudou para São José dos Pinhais, onde, em 12.05.1866, se casou com Leopoldina Maria de Almeida, filha de Joaquim Rodrigues de Almeida, de Lages, e Maria Calisto, de São José dos Pinhais. Foi com Leopoldina que Generoso passou a habitar a região posteriormente conhecida como Fragosos. O casal já tinha ao menos o filho Pedro, batizado em 20.02.1870 em São José dos Pinhais – ou seja, acredita-se que a mudança tenha sido posterior à essa data.

O pioneirismo de Generoso Fragoso encontra alguma resistência para ser aceito quando encontramos o registro de batismo de Gregório, um de seus filhos, em Araucária no dia 08.05.1875. Ora, essa data é posterior àquela que usualmente se defende como a ocupação da região por elementos nacionais. Sabe-se que um dos tropeiros que ajudou os primeiros imigrantes a subir a serra com destino a São Bento, em setembro de 1873, se chamava João Fragoso (ainda não encaixado na genealogia familiar). Ou seja, havia membros da família Fragoso na região de São Bento do Sul antes da data em que encontramos Generoso Fragoso em território paranaense. Não é impossível, no entanto, que Generoso já estivesse em Fragosos na época, mesmo tendo batizado um filho em Araucária – mas existe, nesse ponto, uma dificuldade que precisa ser analisada antes de se chegar a alguma conclusão. Também não é possível afirmar que o tropeiro João Fragoso morava na mesma região de Fragosos – ou seja, a sua simples presença em São Bento do Sul não impede que Generoso tenha chegado antes ao lugar em que passou a morar.

Além de Generoso Fragoso, passaram a morar no lugar, em data incerta, alguns dos seus tios, irmãos da sua mãe Francisca Soares (existem registros de ao menos Virgínio Soares Fragoso, Pedro Soares Fragoso, João Baptista Fragoso, Felippe Soares Fragoso e Miguel Baptista Fragoso, todos filhos de Manoel Soares Fragoso, falecido ainda na Lapa). Também é possível que se deva a esses irmãos o início da povoação do lugar, em alguma migração coletiva da qual Generoso poderia estar presente, mas que, por ter conseguido algum prestígio social[1], teria sido ele o nome que se sobressaiu ao longo dos anos e entrou para a história como o fundador. Embora não seja possível chegar a uma conclusão, a discussão mostra uma primeira tentativa de comprovar documentalmente algumas das histórias da tradição oral em Fragosos.

Generoso Fragoso de Oliveira está sepultado no Cemitério de Fragoso. Faleceu no dia 25.06.1924, aos 79 anos. Essas discussões preliminares podem ser revistas conforme novas descobertas forem surgindo. Elas representam, no entanto, a tentativa de melhor compreender um local especial para quem é descendente da família Fragoso – e até hoje, a região de Fragosos conta com um grande número de descendentes de Generoso e de seus tios.


[1] Sabemos que Generoso Fragoso de Oliveira tinha certo prestígio no meio em que vivia. Consta que algumas reuniões envolvendo personalidades políticas de Campo Alegre teriam acontecido em sua casa. Há vários registros de compadrio que envolvem o nome de Generoso e figuras de destacada atuação na vida pública da região, como o líder republicano João Filgueiras de Camargo. Saturnino Fragoso de Oliveira, filho de Generoso, teve como padrinho de casamento Francisco Bueno Franco, outra personalidade evidenciada na história política de São Bento do Sul e Campo Alegre.

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