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Posts Tagged ‘Kunlatsch’

Há algum tempo escrevi sobre o suicídio de Julie Löffler, esposa de Anton Herdina, ocorrido pouco mais de um ano após ter dado à luz uma filha. As circunstâncias em que isso se deu ainda eram um total mistério, mas agora muitas coisas começaram a ficar mais claras.

Encontrei a seguinte referência feita por Alexandre Pfeiffer, à página 132 do “História da Igreja Católica de São Bento”:

“Já em 1884, um tal de Herdinah matou José Zappa a machado. O criminoso fugiu em seguida para o Paraguai. Sua esposa, pobre e abandonada, se viu levada ao desequilíbrio. Quando lhe nasceu o filho, levou-o, no avental, a uma família e deu fim à própria vida”.

O historiador usou o caso para demonstrar que a população de Rio Vermelho nem sempre vivia dias pacatos. Não existe muita dificuldade em entender que o Herdinah se refere ao sobrenome Herdina. E como já sabíamos do episódio do suicídio da esposa de Anton Herdina, logo se percebeu que a referência de Pfeiffer diz respeito ao mesmo casal a que nos referimos aqui. A explicação do suicídio de Julie Löffler estaria, segundo essa versão, relacionada ao assassinato cometido pelo seu esposo (em circunstâncias igualmente desconhecidas), pois a sua fuga teria feito com que ela perdesse o equilíbrio.

Mas alguns reparos precisam ser feitos nas informações de Pfeiffer. Quem morreu assassinado não foi José Zappa, mas Francisco Zappa (ou ainda Zappe e Zappl). E, na verdade, isso ocorreu no ano de 1885 – mais precisamente, no dia 11 de janeiro.

A correção da data do assassinato também permite que a história se torne muito verossímil. Isso porque, nessa ocasião, Julie Löffler estava realmente grávida – não de um filho, como diz Pfeiffer, mas de uma menina. E ela nasceria um mês depois, no dia 12 de fevereiro de 1885, sendo batizada no mesmo dia com o nome de Bertha e tendo como padrinhos meu trisavô Friedrich Fendrich e Bertha Kunlatsch.

Mas o suicídio de Julie não ocorreu tão logo a criança veio ao mundo, como Pfeiffer dá a entender. Apenas em 25 de março de 1886, mais de um ano depois de nascer Bertha, Julie enforcou-se em sua casa em Bechelbronn.

Temos, portanto, três fatos concretos: Francisco Zappe sendo assassinado, Julie se tornando mãe e Julie se suicidando. As informações do livro de Pfeiffer tornam possível reunir esses fatos em torno de uma mesma história, motivada por um assassinato ainda não explicado – e esse é um dos mistérios que ainda persistem.

Da mesma forma, não nos é possível assegurar que Anton Herdina realmente tenha se mudado para o Paraguai. O ato de desespero da sua esposa, somado à tradição oral que chegou até Pfeiffer, parece apontar realmente para a saída dele de São Bento. Mas nos faltam registros que confirmem a fuga para aquele país, bem como desconhecemos o que lhe sucedeu depois disso. Por ora, a informação sobre o Paraguai é apenas uma interessante pista que ainda precisa de comprovação documental.

Também não sabemos se realmente Julie Löffler abandonou sua filha. O suicídio só viria a ocorrer um ano depois do nascimento de Bertha, mas não podemos garantir que, na ocasião, ela estivesse morando com a mãe. De qualquer forma, quando Julie faleceu, alguém, certamente, teve que ficar cuidando do bebê – e não só de Bertha, mas dos outros filhos de Anton e Julie, todos pequenos. Quem teria acolhido essas crianças? Ainda não encontramos nenhuma pista nesse sentido.

Encontramos, recentemente, descendentes de Maria Herdina, também filha de Anton Herdina e Julie Löffler. E foi possível constatar que ao menos alguns dos filhos desse casal se mudaram para a região de Rio Negro e Itaiópolis. Essa informação talvez possa ser útil na tentativa de identificar aqueles que acolheram as crianças Herdina, já que é provável que também tenham se mudado para lá. Os descendentes, no entanto, desconheciam o episódio do suicídio e do assassinato e, assim sendo, não poderiam informar sobre o paradeiro de Anton Herdina.

Anton e Julie foram pais de ao menos Antônia, nascida ainda na Boêmia, Anna, Maria e Bertha. Dessas, só se conhece o casamento de Maria Herdina, que casou-se em Rio Negro com Alberto Steidel. No entanto, existe uma Alberta Herdina que foi casada com José Becker. Documentos de Itaiópolis, conforme informações do Professor Fernando Tokarski, dão conta de que essa Alberta teria nascido por volta de 1887 – o que certamente está equivocado, já que, nessa data, a fuga de Anton e o suicídio de Julie já haviam ocorrido. Somos fortemente levados a acreditar que Alberta é Bertha Herdina, a mesma criança infeliz que ainda estava na barriga da mãe quando aconteceu o assassinato, e que com um ano de idade ficou órfã da mãe. Essa hipótese sustenta-se não apenas na semelhança fonética entre Alberta e Bertha, mas também na inexistência de qualquer registro de batismo de outra criança nos livros da Igreja Católica de São Bento (além de que, por ser a última filha, é a que mais se aproxima do ano de 1887, estimado em documentos de Itaiópolis).

São essas, em suma, as discussões que puderam ser suscitadas a partir da referência feita por Alexandre Pfeiffer.

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