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Posts Tagged ‘Pioneiros de Sâo Bento do Sul’

Família Jelinski comentava vida em São Bento, mas carta não foi entregue

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Em meio aos arquivos do imigrante Josef Zipperer (1847-1934), seu filho Martim encontrou a carta de um casal de poloneses de São Bento, e que deveria ter sido enviada aos seus familiares na Europa. Josef Zipperer era letrado, ao contrário da maioria dos imigrantes da cidade, e por isso, ao que parece, vez ou outra escrevia para algum deles cartas como essa. Mas por algum motivo ela não foi enviada. Martim a encontrou, passou para o português, e a publicou na terceira edição da obra “São Bento no Passado”, que reúne as memórias de seu pai sobre o tempo da colonização.

A carta é de uma simplicidade e uma singeleza notáveis. Os autores, José e Madalena Jelinski, começam lembrando que esta já era a terceira carta que mandavam, e que ainda não haviam recebido nenhuma resposta. De fato, a comunicação naqueles tempos não era das mais fáceis. A imigração representava, quase sempre, nunca mais ver as pessoas que permaneceram na Europa, limitando-se a, quando muito, contar as novidades através de alguma carta. Nessas ocasiões, eram contados eventos simples, mas bastante significativos para as famílias, como o nascimento de crianças e o casamento de pessoas conhecidas. Também eram essas informações que esperavam receber do lado de lá.

É compreensível que fizessem menção à atividades na lavoura e criação de animais, pois era nisso que precisavam empregar os seus esforços diariamente, a fim de se sustentarem no novo país. Na carta dos Jelinski, é curiosa também a menção a um irmão que estaria pensando em imigrar, e que era alertado pelos já imigrantes de que não precisava ter medo de que, no Brasil, viesse a ser escravo. Os Jelinski também recomendavam que, caso viessem mesmo ao Brasil, trouxessem quadros de santos, coisa que não havia na cidade para as práticas do culto católico.

No geral é um documento bastante curioso, e muito bonito, sobre como viviam os primeiros imigrantes de São Bento e de como se relacionavam com os seus familiares europeus. Transcrevo abaixo esta carta, e ao final dou alguns detalhes sobre as pessoas que nela são citadas.

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São Bento, 7 de Julho de 1879.

Meus queridos Pais e Irmãos:

Já escrevemos duas cartas, mas sem termos recebido uma resposta, e assim escrevemos a terceira.

Graças ao bom Deus, todos estamos com boa saúde e bem dispostos, e desejamos de todo coração que esta carta encontre V. Mce. com boa saúde.

Como novidade lhes comunicamos que houve aumento em nossa família, e que o parentesco aumentou, no dia 20 de Dezembro de 1878, nasceu-nos um forte rapaz e que recebeu no Santo Batismo o nome de José, e agora ele já está crescido.

Esperamos que V. Mce. não nos esqueçam após de tanto tempo já passado que saímos de V. Mce e estamos agora tão longe neste mundo tão vasto.

Ou será que V. Mce. não querem mais nos escrever, pois já faz tanto tempo que não mais escreveram e nada mais soubemos de V. Mce.

Nós estamos agora passando aqui de ano em ano melhor, e estamos muito satisfeitos, já limpamos grande parte do nosso terreno e cercamos uma boa quantidade de morgos para potreiro. Temos agora já uma vaca e um touro, e dentro de 14 dias a vaca deve dar cria. Temos um cavalo para montar, 10 porcos, bastante galinhas e patos.

Os últimos dois anos as colheitas não foram boas. O centeio sofreu muito por lagartas que comeram o centeio. No ano passado uma geada tardia estragou a plantação das batatinhas. Quando estiveram em flor, veio a geada e estragou tudo que foi do plantio cedo.

Queríamos saber se o irmão João ainda está com vontade de imigrar, e caso for, esperamos que venha aqui para junto de nós.

Certamente o irmão está com receio que, caso venha ao Brasil passará a ser Escravo. Nada disto, cada qual é livre, e senhor de si mesmo, e tudo o que se ganha, e se faz, é tudo nosso e cada um pode bem fazer o que ele deseja.

Escrevam-nos se todos ainda estão vivos e se estão todos morando no mesmo lugar e se a família aumentou, e em quantos.

Aonde está o Antônio Dusofsky?

Como novidade escrevemos que todos os filhos do Jakusch já estão casados. A Augusta casou com o João Breszinsky.

Leo e o João vão casar-se dentro de poucos dias, eles casam com duas irmãs, são poloneses. Os dois Jakusch são negociantes.

Os Konkol tiveram uma filhinha, mas não se dão bem com os Jakusch, não se querem bem, porque o Jakusch não pagou o que ficou devendo.

Se alguém de vocês vier aqui para o Brasil, então devem trazer quadros de Santos, aqui não se encontra quadros de Santos.

Finalizamos esta carta com a esperança de uma breve resposta.

Nós saudamos o Pai e a Mãe e todos os irmãos, as irmãs e todos os demais parentes e conhecidos.

Estamos com todo o nosso respeito até a morte.

Os seus filhos e netos,

José e Madalena Jelinsky. 

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Os autores da carta acima são Josef Jelinski (às vezes Gelinski) e Magdalena Kosznik. Ele nasceu em Putz e foi batizado em Berent, na Prússia Ocidental, sendo filho de Albrecht Jelinsky e Christina Engler.  Sua esposa era filha de Andreas Kosznik e Mariana Glodowska. Os dois imigraram de Gr. Bondomen, na Prússia Ocidental, a bordo do Terpsichore, que saiu do porto de Hamburgo aos 10.04.1873 e chegou ao porto de São Francisco do Sul no dia 01.06.1873. Josef contava com 30 anos e Magdalena com 25. Trouxeram consigo os filhos Paul (4 anos e 3 meses) e Eva (3 meses).

Ao chegarem no Brasil, se encaminharam para a atual cidade de Joinville, onde devem ter sido abrigado num dos ranchos de recepção, enquanto esperavam da direção da Colônia uma definição do destino que teriam. No mês seguinte começaram os preparativos para a fundação de uma nova colônia no topo da Serra Dona Francisca, e que viria a se tornar a cidade de São Bento do Sul. E Josef Jelinski esteve entre os primeiros 70 imigrantes que colonizaram a cidade.

A família se estabeleceu na Estrada Wunderwald, que foi conhecida também como “Estrada dos Polacos”, justamente pela maioria étnica dos seus moradores.  A família de Josef Zipperer, o homem que escreveu a carta, foi outra das pioneiras, e também morava na Estrada Wunderwald, embora fosse de origem boêmia.

Ao escrever essa terceira carta, os Jelinski relatam o nascimento do filho José, ocorrido no final do ano anterior.  Era o terceiro filho que tinham em solo brasileiro. Antes dele, haviam nascido Romão (1875) e Magdalena Theresa (1877). É de se imaginar que os seus nascimentos tenham sido relatados nas cartas anteriores. E depois dessa carta teriam ainda outros três: Joanna (1881), Martha (1883) e Valentim (1886).

Aos 13.04.1887, Magdalena Koszik faleceu, vítima de tísica intestinal, aos 40 anos de idade. Seu esposo Josef Jelinski voltou a se casar pouquíssimo tempo depois, aos 17.05.1887, com a também viúva Francisca Demska.  Com ela ficou casado longo período, até que ele veio a falecer, aos 75 anos de idade no dia 08.05.1914. Francisca Demska só viria a falecer, na mesma cidade, no dia 24.08.1927, aos 86 anos.

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Os Jakusch e os Konkol

A carta revela que os Jelinski conheciam as famílias Jakusch e Konkol já na Europa. Não temos o registro de entrada no Brasil de Benedikt Jakusch von Gostomski, casado com Eva Frede, também naturais da Prússia Ocidental, embora saibamos que imigraram e foram moradores na Estrada Wunderwald. O mesmo vale para os seus filhos, com exceção de Leo Jakusch, que aparece num registro isolado, vindo do porto de Santos para o porto de São Francisco do Sul a bordo do Esperança, com chegada aos 24.05.1875.

Embora afirmem que todos os filhos do Jakusch (ou seja, de Benedikt) já estavam casados,  os registros mostram que ainda não estavam casados as filhas Paulina e Rosa e o filho Josef, que morreu solteiro. É possível que tenham nascido em período posterior a imigração, e que assim os Jelinski na Europa não os conheciam. Leo e João Jakusch de fato se casaram com duas irmãs polonesas, chamadas Maria e Josefa Furmannkievicz, respectivamente.  Augusta Jakusch, como dito na carta, foi casada com João Breszinski, de Sabonsch, na Prússia Ocidental, e que também era conhecido dos Jelinski na Europa, como visto. O pai de João, Joseph Breszinski, também foi um dos 70 pioneiros de São Bento.

Outro pioneiro foi Josef Konkol, imigrante da mesma Sabonsch, de onde veio casado com Mariana Niemczyk. Imigraram a bordo do Doctor Barth, que chegou no Brasil aos 07.06.1873, logo depois do navio que trouxe os Jelinski.  Com o casal vieram os filhos Leonhard, Franz, Stanislaus e Juliane. No Brasil, tiveram ainda Helena e João. A “filhinha” citada na carta dos Jelinski era Mariana Konkol, nascida alguns dias antes de escreverem, aos 25.06.1879. Eles teriam ainda as filhas Anastácia (1883) e Ludovica (1885).

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E mais não sabemos ainda sobre a história dos Jelinski, e menos ainda se, um dia, chegaram a ter algum retorno para as cartas que mandavam para os familiares na Europa.  A carta que não foi entregue teve, ao menos, o mérito de se transformar num dos documentos mais curiosos e valiosos na história da colonização de São Bento do Sul.

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Casemiro Waldmann foi um dos 70 imigrantes pioneiros de São Bento do Sul – aqueles que partiram de Joinville para dar início a uma nova colonização no topo da serra. Era natural de Waldowsko, na Prússia Ocidental. Havia imigrado ao Brasil com a esposa Maria Kleszczewska e seus filhos a bordo do Terpsichore, em 1873. Construiu a sua casa na Estrada Wunderwald. Como todos os imigrantes, passou pelas privações iniciais. Naquele ano de 1882, no entanto, já se encontrava em situação melhor. Mas Casemiro não sabia que todo o seu trabalho no Brasil seria perdido.

Alguém de sua família havia deixado lenha empilhada na chapa do fogão, para secar mais rápido. Por um descuido, a lenha pegou fogo. Em poucos minutos, toda a casa foi destruída, não restando nada além de cinzas. Casemiro e sua família conseguiram se salvar, mas perderam tudo o que tinham.

Diante disso, só restava a eles passa a morar provisoriamente no rancho construído anexo à casa, e que não havia sido queimado. A imprensa e a população da região se sensibilizaram com a história da Casemiro, e logo passaram a chegar donativos vindos de Joinville, Campo Alegre e São Bento.

Esses donativos foram colocados no próprio rancho em que a família se instalara. Mas não demorou muito tempo e também ali iniciou-se um incêndio, iniciado não se sabe como, e que destruiu completamente o rancho, e também dinheiro, roupas, camas e mantimentos doados pela população da região. Casemiro perdera tudo de novo.

O que já era ruim, ficara pior. Tudo leva a crer que, na ocasião, sua esposa Maria estava grávida – um filho seu iria nascer em novembro de 1882. A situação exigia medidas emergências. Imediatamente, organizou-se uma comissão para angariar objetos, dinheiro, móveis, víveres e dinheiro para a família.

Foi essa comissão composta pelos colonos Wilhelm Fuckner, Anton Zipperer, Joseph Breszinski, Joseph Faralich, Vincent Czapieski, Joseph Konkel, Thomas Cherek, Anton Duffeck, Anton Stuiber, Joseph Jelinski e Jacob Pilat. Por intermédio dos jornais Kolonie-Zeitung e Gazeta de Joinville, a comissão mais uma vez conseguiu apelar à generosidade da população joinvillense.

Pela segunda vez, a família de Casemiro conseguiu a ajuda necessária e, agora sim, conseguiu se salvar da miséria.

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Como eu já havia cogitado em artigo neste blog, o imigrante Georg Zipperer, um dos 70 pioneiros da colonização de São Bento do Sul, não era irmão do também pioneiro Anton Zipperer, conforme poderia se concluir de algumas passagens da obra “São Bento no Passado”, de Josef Zipperer. O quato casamento de Georg Zipperer, acontecido em São Bento do Sul no ano de 1897 com minha tetravó Anna Trojan, viúva de Wenzel Hannusch, aponta como pais outro Georg Zipperer e Anna Augustin. Pelo registro de batismo e de casamento de Anton Zipperer, sabemos que seus pais eram Jakob Zipperer e Therezia Bohmann, nomes absolutamente diversos.

Se ainda abríamos possibilidade para um eventual equívoco no nome dos pais de Georg Zipperer, a hipótese está totalmente descartada agora que consultamos o registro do seu terceiro casamento, com Magdalena Zipperer,  viúva de Wenzel Pscheidt, ocorrido em São Bento mas registrado nos livros de Joinville, em 1876. Nesse assento, seus pais também aparecem como Georg Zipperer e Anna Augustin, o que nos leva a crer que eles realmente eram assim chamados, e que, portanto, ele não pode ser irmão de Anton Zipperer – que inclusive foi uma das testemunhas desse casamento.

Josef Zipperer, em dado momento, chama os dois de primos, o que nos parece mais provável. Se assim for, resta descobrir quem foram os pais de Jakob e Georg Zipperer, para então poder conectar as duas famílias Zipperer que imigraram para São Bento do Sul. Permanece, no entanto, a dúvida sobre quem seria o Adam Zipperer citado na obra de Josef Blau “Bayern in Brasilien” como pai de Anton, o que claramente não procede.

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I. JAKOB ZIPPERER, morador da Boêmia, casado com Theresia Bohmann, filha de Franz Bohmann, com quem teve:

II. ANTON ZIPPERER, um dos primeiros imigrantes da Colônia de São Bento. Segundo Josef Blau, foi soldado em Klosterneuburg e Viena, na Áustria, e em Verona, na Itália. Nasceu em Flecken #34 no dia 12.01.1813[1]. Conheceu Elisabeth Mischeck, nascida em Gunderwitz por volta de 1822, filha de Thomas Mischeck, carpinteiro e soldado nos Dragões dos Imperador, e de sua esposa Bárbara Kreil. Com ela, se casou em Flecken no dia 08.02.1847. Trabalhava na fazenda de um camponês, realizando todo tipo de serviço que sua família precisasse, e podendo apenas criar algumas galinhas e uma vaca (ZIPPERER, 1954). Sem possibilidade de mobilidade social, Anton Zipperer imigrou com a família ao Brasil em 1873, a bordo do Navio Zanzibar. Tão logo chegaram, ele e seus filhos homens arrumaram emprego na construção da Estrada Dona Francisca. Pouco tempo depois, iniciou-se a subida da serra, com o objetivo de dar início à fundação da Colônia São Bento, da qual Anton Zipperer foi um dos pioneiros (FICKER, 1973). A família conseguiu boas colheitas e, com elas, estabilidade econômica, deixando um legado de prosperidade aos descendentes, o que não seria mais possível na Boêmia. Anton Zipperer faleceu em São Bento do Sul no dia 20.12.1891, já viúvo de Elisabeth Mischeck, falecida em 30.10.1888, tendo sido ambos sepultados no Cemitério Católico da cidade, não mais existente. Tiveram, entre outros:

III. CATHARINA ZIPPERER, nascida em Flecken no dia 08.07.1845. Casou-se em Viena por volta de 1873 com Friedrich Fendrich, filho de Franz Fendrich e Maria Magdalena Trnka. O casal imigrou ao Brasil em 1875 a bordo do Barco Alert, dois anos depois da vinda de Anton Zipperer. Faleceu em São Bento do Sul no dia 18.12.1905, sendo sepultada no Cemitério Municipal. A descendência segue no título FENDRICH.

[Para reprodução do conteúdo, favor citar a fonte]


[1] Conforme pesquisas de David Kohout nos arquivos da região.

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Antes do suicídio de Julie Löffler em 1885, já tratado nesse blog no post “A Família Herdina”, houve um outro que aconteceu em São Bento. É o primeiro que aparece documentado nos livros eclesiásticos. Trata-se de Mathias Piritsch, que esteve entre os primeiros homens que derrubaram as matas para a demarcação dos primeiros lotes da Colônia de São Bento. Veio ao Brasil solteiro a bordo do navio Guttenberg, em 1873. Sua procedência aparece como sendo Herfkirchen, na Boêmia.
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Já em São Bento, e em data ainda desconhecida, Mathias se casou com Eva Bormann, viúva de Michael Witt, outro que esteve entre os pioneiros de São Bento. Esse casal veio ao Brasil a bordo do Zanzibar, também em 1873. Eram de Münsterwald, na Prússia Ocidental. Com apenas seis meses de moradia no Brasil, esse Michael faleceu, no dia 11.03.1874, com cerca de 50 anos. Ao que parece, esse casal não teve descendentes, ou ao menos não imigrou com eles.
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De modo que a esposa Eva ficou sozinha na nova pátria que ela e o marido haviam escolhido para mudar de vida. E aqueles primeiros meses certamente não eram nada fáceis para os imigrantes recém-chegados, que se viam obrigados a passar por todo tipo de dificuldade, dispondo de pouquísismos recursos.
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Em algum momento, Eva conheceu Mathias Piritsch e eles vieram a se casar. Em novembro de 1878 já estavam casados, pois assim aparecem como padrinhos de batismo de Alma Ottília, filha de meus tetravós Friedrich Labenz e Wilhelmine Witt. Não sabemos, no entanto de descendentes de Mathias e Eva. O fato é que no dia 29.12.1884 ele se enforcou “no mato”, deixando-a repentinamente viúva, pela segunda vez.
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Sempre lamentarei a precariedade de informações que temos sobre a vida desses primeiros imigrantes. Isso impede que tentemos descobrir realmente o que motivava as suas ações. Afinal, o que levou Mathias Pirisch a se suicidar? A pobre Eva, viúva de dois dos pioneiros de São Bento, viu o marido ser sepultado fora do campo sagrado, conforme o destino que cabia àqueles que se matavam.

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