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Do arquivo de meu avô:

A Origem deste Carro

Em fins de 1934, o sapateiro Frederico Fendrich Filho idealizou a construção desta carroça para transportar nossos falecidos até a sua derradeira morada. Possuindo um velho trole (carro de molas) que herdara de seu pai, Frederico Fendrich Sênior, utilizou ferragens para fabricar esta carroça moderna, que agora, neste local, fica perpetuada.


Não tendo modelos para construi-la, dirigiu-se com dificuldade à Joinville para fotografar a carroça fúnebre da Funerária Stoll, daquela cidade. Voltando ao terceiro dia com as fotos, solicitou a construção dessa carroça aos Srs. Leopoldo e Alexandre Zschoerper, Jack Matl e Gustavo Stratmann, que, profissionalmente, com esmero e capricho, a concluíram. A pintura foi feita pelo Sr. Ernesto Walter Zulauf. As primeiras cortinas foram confeccionadas em Joinville.

Finalmente pronta, a carroça fúnebre começou a servir a comunidade são-bentense em princípios de 1935. O primeiro esquife que trouxe para esse Campo santo foi o do Sr. Otto Beckert (Putzi), em 15/02/1935. Até maio de 1947, o próprio Frederico Fendrich Filho ou um de seus agregados conduziram os cortejos em São Bento do Sul, atentendo também várias vezes a Rio Negrinho, Campo Alegre e arredores.

Após a morte de seu idealizador, em 25/05/1947, o carro passou a ser propriedade da Prefeitura Municipal de São Bento do Sul, tendo atuado como condutores José Zipperer Filho, Wenzel Pscheidt, Paulo Chapiewski, Alfonso Rank, Rodolfo Denk e, por último, Paulo Muller, que a conduziu por 15 anos, encerrando o uso desta carroça fúnebre em meados de 1976, quando foi abolido esse sistema de enterros em que o povo acompanhava a pé.

Essa carroça fúnebre foi a primeira aqui do município, e trouxe centenas de entes queridos para este cemitério, do mais humilde trabalhador até a mais alta personalidade ou autoridade são-bentense. Assim, tornouse uma valiosa peça da história de São Bento do Sul, que bem merece um lugar para sua recordação.

Para concretizar o desejo de vê-la aqui perpetuada, Herbert Alfredo Fendrich, filho mais novo do idealizador desse carro, com o apoio da Administração Municipal 89-92, efetuou a restauração da carroça fúnebre, contando com a ajuda dos profissionais Zilda Habowski (costuras) e Pedro Santos (pinturas).

Com agradecimento especial ao Sr. Lourenço Schreiner, digníssimo Prefeito Municipal, Paulo Roberto Knop, engenheiro, e demais pessoas que colaboraram para a execução desta importante obra.

São Bento do Sul, Julho de 1992

No dia 23.09.1992, durante as comemorações de aniversário da cidade, Herbert Alfredo Fendrich desfilou com a carroça idealizada e conduzida por seu pai. Restaurada, a carroça está atualmente na entrada do Cemitério Municipal.

Vez ou outra alguém entra em contato comigo buscando mais informações sobre a possibilidade de conseguir a cidadania europeia com base em antepassados boêmios de São Bento do Sul. Confesso que nunca me interessei em buscar essa cidadania para minha família. Não é esse o objetivo das minhas pesquisas históricas e genealógicas, e me sinto muito satisfeito com a cidadania que consegui ao nascer. No entanto, na medida do possível, tento responder a alguns questionamentos, sempre colocando muitas dúvidas sobre a possibilidade de um descendente de boêmios conseguir o documento.

Antes de tudo, é preciso que a pessoa saiba que seus antepassados eram boêmios (como são grande parte das famílias “alemãs” de São Bento do Sul). A busca incessante em valorizar as características germânicas da cidade causa tamanha confusão que, hoje em dia, a maioria da população acha que, se há cidadania a reivindicar, é a alemã. É um tanto penoso explicar, então, o que é a Boêmia, e qual a relação que havia entre ela e a Alemanha. Penoso porém necessário, pois parece injustificável que se exalte o atual território alemão como se representasse toda a origem da nossa história.

Em suma, a Boêmia é um território que, na época da imigração, pertencia ao Império Austro-húngaro. Atualmente, faz parte da República Tcheca. Os imigrantes boêmios de São Bento do Sul vieram de duas regiões, basicamente: o mais ou menos conhecido Böhmerwald, próximo à divisa com a Bavária (essa sim, no atual território alemão) e o Reichenberg, no norte da Boêmia, mais próximo da Saxônia (hoje também parte da Alemanha). Embora não viessem, propriamente, do território alemão, esses imigrantes eram realmente de origem germânica. Durante os séculos XII e XIII, os próprios duques tchecos incentivavam os alemães a ocuparam as regiões fronteiriças. Mas o fato de possuírem essas origens, compartilharem a mesma cultura e falarem a língua alemã não permite que os descendentes reivindiquem a cidadania desse país.

Admitindo que isso fosse possível, a Embaixada da Alemanha em Brasília trata de derrubar qualquer possibilidade. Segundo ela, um cidadão alemão que imigrou antes de 1904 perde automaticamente a sua nacionalidade após permanecer dez anos no exterior sem realizar matrícula no consulado. Também perde se, por vontade própria, adquirir uma nacionalidade estrangeira – como fez o imigrante boêmio Johann Rössler de São Bento do Sul, que, provavelmente para desespero de alguns, foi oficialmente declarado brasileiro. A isso soma-se o fato de o território de origem nunca ter pertencido à atual Alemanha, apesar das origens remotas de seus antigos habitantes, e assim chega-se a conclusão de que é impossível um descendente boêmio de São Bento do Sul conseguir a cidadania alemã.

É preciso reparar que esses imigrantes tampouco se consideravam alemães. A noção de que eram alemães é mais atual, e nasce de um profundo desconhecimento das raízes históricas e geográficas que formaram o nosso passado (desconhecimento que o poder público não faz questão alguma de minimizar). Nos seus documentos brasileiros, eles eram qualificados, ou então qualificavam-se e deixavam-se qualificar, como austríacos – afinal, a Boêmia ficava no Império Austro-húngaro e, mais especificamente, na parte austríaca.

Seria possível, então, buscar a cidadania austríaca? Segundo a Embaixada da Áustria em Brasília, é necessário comprovar, com base em documentos, que o requerente, seus pais ou seus avós possuem a nacionalidade austríaca. Ora, estamos na quinta geração de descendentes dos imigrantes. Grande parte das pessoas que estão buscando a cidadania são trinetos de austríacos. Parece que há duas gerações perdemos a possibilidade de reivindicar uma cidadania (e, nem assim, por conta das confusões geográficas, sabemos se isso seria realmente possível). Assim como no caso da cidadania alemã, há um série de fatores que podem fazer com que a pessoa perca a sua nacionalidade austríaca – o que inviabiliza todo o processo. Quem adquiriu cidadania estrangeira, ingressou voluntariamente no serviço militar de outro país, ou ainda fez parte do serviço público estrangeiro antes de 01.07.1966, não tem direito algum. Essa talvez fosse a cidadania mais adequada, mas é igualmente impossível conseguí-la.

Sobrou ainda a cidadania tcheca (afinal, esse é o atual país a que pertence o território da Boêmia). E basta uma olhada no site do Consulado Geral da República Tcheca de São Paulo para entender que também não é possível que um descendente de boêmio em São Bento do Sul alcance essa nacionalidade. Todos os documentos reunidos devem ser tchecos, escritos na língua tcheca e emitidos por órgãos tchecos. Os registros dos imigrantes de São Bento do Sul na Boêmia foram escritos, no entanto, em alemão. Para piorar, não é possível “pular” gerações. Se seu trisavô era “tcheco”, seu bisavô também deve ter sido naturalizado. E seu avô e seu pai. E só então você poderá buscar alguma coisa. Então, o melhor é esquecer também essa possibilidade.

Os boêmios de São Bento do Sul terão que se conformar em ser brasileiros.

“São Bento no Passado” também é, por vezes, “Campo Alegre no Passado”. A história das duas cidades foi a mesma até o desmembramento de Campo Alegre, em 1897, apesar da distância que as separava e das diferentes etnias de seus moradores – ao invés de imigrantes, Campo Alegre era habitada por paranaenses de São José dos Pinhais e da Lapa. Vários desses brasileiros estiveram entre as primeiras autoridades nomeadas para São Bento do Sul – os imigrantes, em geral, se demonstravam desinteressados pela política. E as duas cidades se relacionavam de diferentes formas, inclusive comerciais e culturais. Parece certo que para uma compreensão mais ampla da história local é preciso levar em conta as interações entre os grupos que habitavam São Bento do Sul e Campo Alegre.

A historiografia são-bentense, no entanto, não costuma entender os paranaenses de Campo Alegre como uma parte importante de sua história. As raras exceções em que são mencionados se resumem, naturalmente, às suas atuações políticas e ao conflitos de terra – geralmente, se posicionando a favor da causa imigrante, a ponto dos brasileiros serem vistos como simples intrusos (quando não arruaceiros). A historiografia de Campo Alegre (mais reduzida, e admito não conhecê-la tão bem), embora considere a interação com São Bento do Sul, parece não ter ainda esmiuçado de verdade o seu próprio passado. Falta, parece, uma obra com a densidade e a fidelidade documental que Ficker buscou no seu livro sobre São Bento. Hoje, praticamente todos os brasileiros pioneiros na ocupação da cidade, e os feitos a ele atribuídos, já estão totalmente esquecidos. E o desconhecimento da história faz com que ela seja preenchidade maneira equivocada. Assim é que sites de turismos dão conta de que Campo Alegre foi colonizada por espanhóis, portugueses, alemães e poloneses. Seus pioneiros, realmente, até tinham ascendência portuguesa e espanhola, mas já estavam no Brasil há  dois  ou mais séculos. Se houve colonização (palavra que parece exigir uma qualificação européia) ela foi, principalmente, brasileira.

Assim, creio que as novas descobertas sobre o passado da cidade e de seus personagens devem ser comemoradas e divulgadas. E há tanta coisa para ser descoberta! Isso inclui São Bento do Sul, já que muitos aspectos de sua história ainda não foram devidamente explorados, e podem aumentar consideravalmente a compreensão que se tem do nosso passado (atualmente bastante maltratado por um historiador de status). A cidade de Joinville ainda esconde, em jornais e documentos, aspectos interessantíssimos dessa história, e que ainda permanecem inéditos. São fontes preciosas até pela própria antiguidade das informações. Representam o início da história das duas cidades.

As cidades do norte catarinense contam com um número de pesquisadores que, embora sejam poucos, estão realmente dispostos a colaborar uns com os outros, e dessa maneira a tendência é o crescimento da historiografia regional e o seu aperfeiçoamento, cada vez mais embasado em fontes documentais – sempre levando em conta a oralidade, mas esclarecendo quando se trata dela. Isso tem permitido o aumento do número de informações sobre o passado de Campo Alegre. Aos poucos, em novos posts, tentarei falar um pouco mais sobre os primeiros campoalegrenses – na época em que ser campoalegrense era o mesmo que ser sãobentense.

PS: São-bentense se escreve com ou sem hífen?

Recentemente, o jornal O Estado do Paraná publicou uma matéria sobre São Bento do Sul, exaltando as suas elevadas tradições culturais (ou seja, repetindo os velhos clichês sobre a colonização européia). Chegam a ir além, pois atribuem aos rústicos imigrantes uma grande atividade literária. E, para completar, repetem o velho bordão de que a cidade é a capital dos móveis, da música, do folclore e mais recentemente… do turismo!

Com isso, cai por terra a minha absurda teoria de que é preciso dar informações aos turistas sobre a nossa cidade, uma vez que isso se mostrou totalmente dispensável para conseguir tamanha e tão distinta honraria.

A única foto conhecida da Sociedade Auxiliadora Austro-húngara, disponível no Arquivo Histórico de São Bento do Sul, foi publicada pela primeira vez no livro “São Bento no Passado”, de Josef Zipperer (1951). Nele, não existe citação a qualquer dos personagens que dela fazem parte, mas apenas do ano em que foi tirada – 1900. Osny Vasconcellos e Alexandre Pfeiffer reproduziram a fotografia no belo “São Bento – Cousas do Nosso Tempo”(1991), e de lambuja identificaram dois personagens: o presidente Friedrich Fendrich, que é o quinto da primeira fileira, ostentando grandiosa barba branca, e Johann Hoffmann, outro dos principais personagens da Sociedade, e que está imediatamente depois de Fendrich.

Recentemente, algumas novas descobertas têm sido feitas. A foto de Benedicto Bail, o noivo do primeiro casamento boêmio de São Bento do Sul, e que me foi cedida por Norma Huebl, permitiu que também esse personagem fosse identificado entre os membros da Sociedade. Na fotografia, Benedicto é o quarto da segunda fileira.


Fontes familiares também deram conta da participação dos irmãos Aloís e Johann Schreiner na Sociedade. A comparação de fotos permite considerar que Aloís Schreiner é o terceiro após Benedicto Bail. Johann, por sua vez, seria o próximo, penúltimo desta fileira.

Também recentemente, pude reconhecer meu bisavô Frederico Fendrich Filho na foto. É o quarto da terceira fileira, partindo da direita. Contava na época com 18 ou 19 anos. O professor Friedrich Fendrich, além de Frederico, teve um outro filho homem chamado Francisco, do qual não se sabe a idade, mas que, caso tenha sido mais velho, provavelmente também está presente na foto. O outro filho, José Fendrich, contava com 17 anos e, aparentemente, não estava na ocasião.

Ainda procurando comparar fotografias da época com essa fotografia da Sociedade, creio ter encontrado mais um membro. Paul Zschoerper, que foi o primeiro presidente da Sociedade dos Atiradores de nossa cidade, parece ser o mesmo que está na terceira fileira (o terceiro, contando o porta-bandeira). Traços fisionômicos como a barba, a testa larga e o cabelo são bastante semelhantes.

Até o momento, foram essas as descobertas e suposições que nos foram permitidas levantar a respeito dos membros da histórica foto da Sociedade Auxiliadora Austro-húngara.

As famílias Carneiro e Fragoso estiveram entre as primeiras que ocuparam a região de São Bento do Sul/Campo Alegre. As duas possuiam suas origens na cidade de São José dos Pinhais. Mais remotamente, a genealogia dos Carneiro aponta para Antonina e, talvez, São Francisco do Sul. A história familiar dos Fragoso, por sua vez, alcança a Lapa, depois volta para Curitiba e então chega a Taubaté. A pioneira ocupação das duas famílias deve ter feito com que possuissem uma boa quantidade de terras, razão pela qual tanto Carneiros quanto Fragosos tiveram os seus sobrenomes usados para designar os locais que suas famílias ocupavam.

Em 1876 e 1877 o pároco Karl Boegershausen, ao se referir à ermida de Santo Antônio, localizada em Avenquinha, complementava esclarecendo que ficava “nos Carneiros”. Documentos posteriores não repetem a denominação, no entanto. Situação bem diferente aconteceu com as famílias que moravam “nos Fragosos”. A localidade, que não fica longe da Avenquinha dos Carneiro, possui o seu nome mantido até os dias atuais.

Ao consultar as leis e decretos-leis que diziam respeito à configuração territorial de São José dos Pinhais (COLNAGHI, 1992), encontrei duas referências a Carneiros e Fragosos, uma em 1874 e outra em 1876. Nesses anos, as propriedades das duas famílias são citadas como referências para definir os limites territoriais que separavam São José dos Pinhais de Santa Catarina. As descrições, no entanto, não são tão claras a ponto de se definir com precisão, depois de tanto tempo, quais eram os contornos exatos dessas demarcações e a quais lugares elas correspondem na atualidade. É necessário um grande conhecimento da hidrografia local da época, e muitas vezes nem assim.

Em 1874, os limites de São José dos Pinhais eram, conforme a Lei nº 402, de 13 de abril, com grifos nossos:

Art 1º. – Ficam determinadas, entre os municípios de São José dos Pinhais, Lapa e Rio Negro, as divisas seguintes: Principiando da barra do Ribeirão Izabel Alves e subindo por ele até a barra do Ribeirão das Porteiras; deste ribeirão e por ele acima até a sua principal cabeceira e daí à rumo direito a chegar no paiol de Veríssimo Gonçalves Cardoso; e do paiol à rumo direito pelas divisas dos terrenos de João Ferreira de Lima; deixando estes terrenos à esquerda até sair na estrada da Roseira; seguindo esta até o Ribeirão Turvo e por este baixo até o Rio da Várzea, e subindo por este até a barra do Rio Pangaré e daí, por ele acima, até a cabeceira, e desta à rumo direito no Rio Piên e por este abaixo até o Rio Negro, subindo por este até a barra do Ribeirão dos Passos que igualmente serve de divisa entre as propriedades dos Carneiros e Fragosos;  subindo o Ribeirão dos Passos até sua cabeceira e desta à rumo da Serra Geral, limite desta Província com a de Santa Catarina.

A lei nº 463 de 15 de abril de 1876 novamente estabelece os limites, citando o Ribeirão que fazia divisa entre as propriedades de Fragosos e Carneiros. Mas, dessa vez, a transcrição o dá como Ribeirão dos Poços, e não dos Passos:

Art. 1º – Ficam determinadas entre os municípios de São José dos Pinhais, Lapa e Rio Negro as divisas seguintes: Principiando da barra do Ribeirão Izabel e subindo por ele até a barra do Ribeirão das Porteiras, deste ribeirão e por ele acima até a sua principal cabeceira e daí à rumo direito a chegar ao paiol de Veríssimo Gonçalves Cordeiro, do paiol à rumo direito, pelas divisas dos terrenos de José Ferreira de Oliveira, deixando estes terrenos à esquerda, até subir na estrada da Roseira, atravessando esta a procurar o paiol de João Preto, seguindo pela estrada dos Limas até o Ribeirão do Barco, e por este abaixo até sua foz, no Rio da Várzea e subindo por este até a confluência do Ribeirão Água Clara e por este acima até a sua última cabeceira da esquerda, e desta a procurar o paiol Aterrado Alto, por uma estrada velha até a cabeceira do Ribeirão dos Faxinais e por este abaixo até o Rio Negro, e seguindo por este até a barra do Ribeirão dos Poços, que serve de divisa entre as propriedades dos Carneiros e Fragosos; e subindo o Riberão dos Poços até sua cabeceira e desta, à rumo direito Serra Geral.

Um Rio do Passo também aparece na lei nº 172 de 14 de abril de 1868: “… passando pelo rio do Passo, entre Pedrinhas e Pão de Lot e do Rio da Cachoeira…“. No ano seguinte, a lei nº 194 de 31 de maio alterava o nome Rio do Passo para Rio do Poço. O que sabe com certeza é que, modernamente, não existe nenhum rio com esses nomes.

Uma leitura mais apurada dessas leis pode, com o tempo, permitir que se localize melhor as propriedades pertencentes a duas famílias importantes no povoamento da região.

Referências: COLNAGHI, Maria Cristina; MAGALHÃES, Marionilde Dias Brepohl de;  MAGALHÃES FILHO, Francisco de Borja Baptista de. São José dos Pinhais – A Trajetória de Uma Cidade. Editora Prephacio: Curitiba, 1992.

O pioneiro Josef Zipperer, em seus diários compilados na obra “São Bento no Passado”, enuncia alguns costumes trazidos por imigrantes boêmios e bávaros, e que hoje já estão totalmente esquecidos. Eis alguns deles:

- Um grande crucifixo era erguido em frente da casa que se queria construir.

- Comemorava-se o terceiro domingo de outubro como o Dia de Ação de Graças pela colheita. No Brasil, a data caia na primavera e no tempo do plantio. No entanto, também era comemorada.

- Para anunciar o casamento de alguém, um menestrel dirigia-se às residências declamando o seu convite. Ao final, desenhava a giz na porta da casa uma coroa de ramos e dentro dela a quantia a ser paga pelas refeições.

- O primeiro convidado a chegar na festa do casamento era recebido com uma garrafa de vinho.

- Uma das atrações das festas era uma corrida para disputar uma espécie de “chapéu velho”. Quem o conseguisse, era o mais cortejado da festa. Acredita-se que o costume pretendia simular o rapto da noiva.

- Na véspera do casamento, crianças faziam um barulho infernal na casa da noiva, usando latas vazias e principalmente cacos de vidro, que eram quebrados em mil pedaços. Supunham que o sentido original era afugente os espíritos malignos. A noiva tinha o trabalho de retirar os cacos no dia seguinte. Quanto mais cacos, mais feliz seria o casamento!

- Uma vez por ano, realizavam uma romaria a um determinado santuário, sempre no dia 08 de setembro, em que se lembravam do nascimento de Nossa Senhora.

- Os enterros costumavam ser “comemorados”. Familiares e amigos seguiam para salões ou botequins.

- O pão só era cortado depois de ser benzido.

Na última sexta-feira, 24 de julho, faleceu da vida presente o ilustre são-bentense Ludovico Baltazar Buschle, renomado empresário e ex-Prefeito Municipal de Joinville. Em sua homenagem, encaminho um artigo produzido pelo amigo Marcio Ricardo Staffen:

Ludovico Baltasar Buschle:

ser humano que soube ser humano

Marcio Ricardo Staffen[1]

As frases são minhas, as verdades emanam de Ludovico Baltasar Buschle, homem a frente de seu tempo, de iluminação ímpar, movido por seu amor pela humanidade e pelo bem do ser humano.

O vigésimo quarto dia deste mês assinala não somente o falecimento do filho mais ilustre de São Bento do Sul no século XX, ou a perda um de cidadão modelo de Joinville, mas, sobretudo e, acima de qualquer oposição de um expoente humano em todo mundo.

Dentre tantas orações, a produzida por Lao Tse sintetiza perfeitamente a personalidade de Buschle: “O menor dos homens é como a água. A água a todas as coisas beneficia e com elas não compete. Ocupa os (humildes) locais vistos por todos com desdém nos quais se assemelha ao Tao. Em sua morada (o Sábio) ama a (humilde) terra. Em seu coração ama a profundidade. Em suas relações com os outros, ama a gentileza. Em suas palavras, ama a sinceridade. No governo ama a paz. No trabalho, ama a habilidade.”

Ludovico Baltasar Buschle levou a feito a todo momento o dever de considerar a humanidade inteira como sua família e se comportou em toda circunstância e em todo lugar como um cidadão do mundo, fazendo assim da humanidade a base de seu comportamento e de sua filosofia.

Por essas razões, sentimos hoje não somente a lacuna de um conterrâneo, mas, a falta de um político íntegro, de um administrador, economista e industrial justo, de um sábio conselheiro, de um filantropo nato, e de um paradigma moral a ser imitado. A mesma falta que a civilização possui de Luther King, Jean Monnet, Abraham Lincoln, Benjamin Franklin, João Paulo II, Madre Tereza de Calcutá, Rui Barbosa e Sérgio Vieira de Melo passa a ter de Ludovico Baltasar Buschle.

Ainda assim, com toda certeza, seu espírito vive, seus ensinamentos persistem, sua iluminação não se apagou. Se nós quisermos expressar como desejamos que fosse o homem desta e da próxima geração, devemos dizer: seja como Baltasar Buschle.

Em regra, a morte é esquecimento. Mas a obra de Baltasar Buschle desafia a morte, o seu espírito e seus paradigmas não morrem. Consubstanciam-se com o sentimento de fraternidade existente em cada homem. Nas palavras de Camões, Ludovico Baltasar Buschle é um daqueles “que por obras valorosas, se vão da lei da morte libertando.”


[1] Márcio Ricardo Staffen é acadêmico 10º período Direito/ UNIVALI. E-mail: staffen_sc@yahoo.com.br

Recentemente, descobriu-se na casa de minha avó um antiga caderneta relativa ao período que Rodolfo Giese, meu bisavô, esteve no Exército. O documento é bastante detalhado, revelando, inclusive, sinais da fisionomia de Rodolfo. Algumas palavras da caderneta ainda não puderam ser entendidas, mas a maior parte do conteúdo já pode ser assimilado. Existem referências curiosas, como a dispensa que Rodolfo conseguiu para ir a Joinville cuidar de um resfriado e, especialmente, o período que passou detido por ter chegado no quartel depois da patrulha. Eis o conteúdo do valioso documento:

Caderneta de Assentamento de praças

Classe de 1897 do Anno de 1919

Pertence

a ex-praça Rodolfo Guise (sic) n. 48 da 18ª Companhia de Metralhadores

Quartel de 18ª Companhia de Metralhadores

em Blumenau em 29 de Fevereiro de 1920

João Felippe Bandeira de Mello

1º Tenente COMMANDANTE

Filho de Carlos Guise (sic)

Nasceu em 1897

Natural de Santa Catharina

Estado Solteiro

Altura 1,76

Barba Pouca

Bocca Regular

Cabellos Castanhos

Côr Branco

Nariz Afilado

Officio Sapateiro

Olhos Azues

Rosto Comprido

Lê? Sabe

Escreve? Sabe

Conta? Sabe

Vaccinado? É

Signaes particulares: Nenhum

1919: Fevereiro: A 1º, foi inscrito no estado effectivo da Segunda Companhia, do tre…. batalhão de Infantaria por ter sido sorteado para o serviço do Exército. Março: A oito, as oito horas da manhã, embarcou com a Companhia com destino a cidade de Blumenau a fim de ali destacar conforme ordem do senhor Comandante do quinto regimento de infantaria, em telegrama de numero oitenta e dois, de vinte e seis de Janeiro. A nove desembarcou em Blumenau e no mesmo dia a ……… no edificio da Sociedade dos Atiradores desta Cidade. Abril –  Maio e Junho: Sem alteração. Julho: A quinze foi aprovado com grao dois e cincoenta e quatro no exame de primeiro …………… …………….. …… ….. vinte e sete  ……… ……….. e vinte e nove do passado. A dezoito obteve seis dias de dispensa do serviço e permissão para ir a Joinville convalescer de influenza. A vinte e quatro apresentou-se. Agosto: Sem alteração. Setembro: A vinte e oito ficou detido por quarenta e oito horas por ter chegado no quartel depois da patrulha. A trinta foi posto em liberdade por conclusão de tempo. Outubro – Novembro e Dezembro: Sem alteração. Em 1920: A primeiro de acordo com a transformação da segunda Companhia do ……. Batalhão do quinto regimento da Infantaria passou a pertencer a décima oitava Companhia de Metralhadoras estacionada nesta cidade e pertencendo a Segunda …………………… ……………… …. número quarenta e oito. Fevereiro: A 29, em cumprimento ao anexo numero mil quinhentos e dezeseis de dezesete de Dezembro do ano mil novecentos e dezenove, que regula a execução do decreto numero mil, digo, treze mil novecentos e sessenta e quatro, de dezesete ainda deste mez e anno, foi excluído do estado…………. desta companhia por conclusão de tempo de serviço ficando relacionado como reservista de 1ª linha e 1ª Cathegoria do Exercito. Quartel da 18ª Companhia de Metralhadoras em Blumenau, 29 de Fevereiro de 1920.

João Felippe Bandeira de Mello

1º Tenente Comandante

Attesto que o reservista Rodolfo Guise (sic) da classe de 1897 apresentou-se a esta Junta Militar e foi dispensado da proxima incorporação por ordem superior.

São Bento, 15 de Agosto de 1922

Carlos Zipperer

Presidente da Junta Militar

I. MICHAEL BRANDL, que foi casado com Margareth Mundl e com ela teve:

II. JOSEF BRANDL, lavrador, nascido por volta de 1837 na região de Eisenstrass, na Boêmia. Ainda na Europa, casou-se com Anna Weinfalter ou Schweinfalter, nascida por volta de 1835, com quem imigrou ao Brasil em 1874, a bordo do Shakespeare, estabelecendo-se em São Bento do Sul num lote no lado oeste da Avenida Argolo. Sua esposa Anna faleceu no dia 15.10.1890, vítima de apoplexia, e foi sepultada no Cemitério Católico da sede de São Bento, não mais existente. Viúvo, Josef Brandl voltou a se casar no dia 08.10.1892 com Therezia Grossl, de Hammern, filha de Johann Grossl e Therezia Linzmeyer. Às 5h do dia 02.07.1917, na casa de seu genro Benedikt Beyerl, faleceu Josef Brandl, em consequência de velhice, deixando três filhos de maior idade, e sendo sepultado no Cemitério de São Bento, em túmulo desconhecido. Tiveram Josef e sua primeira esposa Anna Weinfalter, entre outros:

III. CATHARINA BRANDL, nascida em Eisenstrass no dia 21.03.1865, tendo imigrado ao Brasil em companhia de seus pais e irmãos. Casou-se em 10.02.1886 com Benedikt Beyerl, de Holschlag, filho de Peter Haden e Maria Beyerl, e viúvo de Anna Maria Neppel. Faleceu em São Bento do Sul no dia 04.02.1911, sendo sepultada no Cemitério Municipal da cidade. Teve geração conforme o título BAIL.

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