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Luiz Thomé morreu sozinho, vítima de desnutrição. Sua esposa só descobriu dois meses depois.

Poucos dias antes do Natal de 1905, mais precisamente no dia 21 de dezembro, Joaquina Fragoso Cavalheiro, de 35 anos, deu à luz seu quinto filho, o primeiro homem. Era o dia São Tomé, o apóstolo, e por isso o nome escolhido para criança foi Luiz Thomé Fragoso. Seu pai, Saturnino Fragoso de Oliveira, era um simples lavrador, de 38 anos, filho mais velho do negociante Generoso Fragoso de Oliveira, tido por muitos ainda hoje como fundador da localidade de Fragosos, em Campo Alegre. Naquele ano de 1905, Generoso ainda vivia, com 60 anos, cinco a mais que sua esposa Leopoldina Maria de Almeida. Os avós maternos do pequeno Luiz Thomé, no entanto, chamados Felippe Soares Fragoso e Flora Lina Cavalheiro, já eram falecidos. Os pais de Luiz Thomé eram parentes entre si. A mãe de Generoso (portanto, bisavó de Luiz Thomé) , chamada Francisca Soares, ainda vivia naquela oportunidade, com 78 anos de idade.

 Saturnino Fragoso de Oliveira e Joaquina Fragoso Cavalheiro já haviam tido até então as filhas Lina Maria Magdalena (1896), Christina Virgilina Paulina (1898), Catharina Juliana (1901) e Maria Clara (1903). Três anos depois, ainda teriam o filho André José. Luiz Thomé Fragoso passou a sua infância e cresceu na própria região de Fragosos, onde nasceu. Não tinha completado ainda 18 anos quando viu o pai falecer, em 1923, sendo o avô Generoso ainda vivo. No ano seguinte, também o avô faleceu. Nenhum deles teve oportunidade de acompanhar o casamento de Luiz Thomé, ocorrido civilmente em São Bento do Sul no dia 21 de setembro de 1929, um sábado.

Sua noiva chamava-se Rozina Hannusch. Tinha 20 anos na ocasião. Era filha de Johann Hannusch, nascido na Boêmia, e imigrado ainda criança ao Brasil, da mesma forma que sua esposa Barbara Mühlbauer, nascida na Baviera, e imigrada pelo mesmo navio no ano de 1877. Embora tenham primeiro se estabelecido na Estrada dos Banhados, em São Bento do Sul, membros das famílias Hannusch e Mühlbauer acabaram se mudando para a região de Fragosos, onde provavelmente Rozina veio ao mundo, e também onde, ao que tudo indica, deve ter se encontrado com Luiz Thomé, despertando-lhe o interesse que resultaria em casamento. 
 
Deste casamento, nasceriam cinco filhos: Cristina, Adelina, Carlos, Bernardo e Otília, a única que ainda vive na presente data. Luiz Thomé Fragoso também era apenas um lavrador, mas tinha considerável quantidade de terras, algumas no lado catarinense e outras no lado paranaense do Rio Negro, heranças ainda do pioneirismo de sua família na região. Sofria de uma enfermidade no intestino que lhe causava diarreias e até mesmo hemorragias, buscando tratamento nas flores ou folhas de tanchagem.Não foi essa, no entanto, a enfermidade que fez com se deslocasse até Curitiba. 
 
Nos primeiros anos da década de 50, Luiz Thomé Fragoso vivia separado de sua esposa Rozina Hannusch, por motivos ainda não esclarecidos. Vivia na companhia da irmã Christina, casada com José Paulino Baptista, com quem morava no lado paranaense do Rio Negro. Luiz ainda morava lá quando começou a sofrer de hidropisia em suas pernas – doença que também afetaria Christina. Rozina, sabendo da enfermidade, pediu que fossem até a casa de José Paulino para verificar se Luiz Thomé não queria voltar pra Fragosos, se dispondo a cuidar dele. Luiz Thomé teria negado, alegando uma consulta ou viagem já marcada para Curitiba. O próprio José Paulino teria se encarregado de levá-lo para lá. 
 
Já na capital paranaense, foi internado possivelmente na Santa Casa. Para lá se dirigia de vez em quando, durante suas viagens a trabalho, Narciso Ferreira da Silva, genro de Luiz Thomé Fragoso, casado com sua filha Cristina, a fim de saber novidades sobre o seu estado de saúde. Aparentemente não tinha acesso a ele em sua visitas, sendo apenas informado de como estava. Não se sabe por quanto tempo durou esta situação. Um dia, em certo mês de julho, Narciso foi ao hospital perguntar sobre Luiz Thomé e a mulher que o atendeu, depois de uma consulta aos registros internos, informou: “Este homem faleceu há dois meses”. 
 
Ao que tudo indica, e pelo que uma série de referências cruzadas nos permite concluir, Luiz Thomé Fragoso faleceu no Hospital Nossa Senhora da Luz, em Curitiba, no dia 24 de maio de 1956, uma quinta-feira. Seu registro de óbito deixa claro que ninguém sabia muita coisa sobre o seu passado em Santa Catarina. Tinham a informação de que fora casado, mas não sabiam com quem, e nem se chegara a ter filhos. Morreu longe de todos, vítima de caquexia, ou seja, uma desnutrição severa, causa aparentemente alheia ao problema inicial que o fez se internar em Curitiba. Foi sepultado no Cemitério do Boqueirão, certamente sem qualquer tipo de cerimônia e tampouco identificação para o seu túmulo. Praticamente como indigente. 
 
Ouvindo a notícia inesperada, Narciso Ferreira da Silva voltou a Santa Catarina, passando a informação à esposa, filhos e demais familiares de Luiz Thomé Fragoso. Algum tempo depois, Narciso, na companhia de outra testemunha, retornou a Curitiba para conseguir uma cópia do registro de óbito de Luiz Thomé. O documento era necessário para a venda de terras que Luiz Thomé possuía no Paraná, o que foi feito em seguida. As muitas terras que possuía na localidade de Corredeiras também acabariam vendidas, inclusive à custa de muito logro contra a viúva Rozina Hannusch. Com o passar dos anos, os descendentes que permaneceram em Fragosos viram suas posses reduzidas e hoje vivem bastante modestamente no lugar. 
 
E este foi o triste fim de meu bisavô Luiz Thomé Fragoso. 

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Para entender melhor a existência da escravidão em São Bento do Sul e Campo Alegre é preciso antes reafirmar a intensa colonização feita por paranaenses na região. Eram alguns deles, e não dos imigrantes, que mantinham mão-de-obra escrava. Ao contrário do que geralmente se imagina, os paranaenses não se limitavam a um ou outro intruso que arrumava confusão com a Sociedade Colonizadora. Pelo contrário: se considerarmos Campo Alegre como uma parte de São Bento (como era no tempo da escravidão), descobriremos então que havia inclusive mais brasileiros do que imigrantes na região.

Esses muitos brasileiros que saíram do Paraná e se estabeleceram em São Bento e Campo Alegre eram em sua maioria, ao que tudo indica, gente simples. Pequenos lavradores e criadores de gado. É inexato dizer que todos eles estiveram envolvidos com o negócio da erva-mate – do mesmo modo que não é possível atribuir a isso a vinda dos primeiros deles para a região. Havia, no entanto, uma pequena elite entre esses paranaenses. Era constituída por grandes fazendeiros que vieram principalmente de São José dos Pinhais, onde suas famílias, há muitas gerações, ocupavam cargos de destaque na vida pública e mantinham patentes militares.

E tinham escravos. Foi natural então que, ao se mudarem para São Bento e Campo Alegre, também trouxessem consigo a porção que lhes coube dos escravos da família. Até então, tínhamos identificado, com base principalmente em registros civis e católicos, 10 proprietários e 15 escravos morando na região – lembrando que os filhos de escravos nasciam livres desde 1871, com a Lei do Ventre Livre, e portanto não entram nessa conta.

Agora, o número de escravos conhecidos aumentou. Isso porque a preciosa Brigitte Brandenburg, pesquisadora da lista SC_Gen, me encaminhou uma relação de escravos do livro de Escrituras de compra e venda de escravos, do período 1871-1882, do Cartório do Tabelião de Notas de Joinville, conforme acervo da biblioteca da Escola Técnica Tupy.  Lá constam, entre outros:

17/12/1879 – Escrava Rosa, criola, de 30 anos aproximados, de propriedade de Maria Dias do Rosário (procurador Antonio Alves Pereira), vendida a Antonio Carneiro de Paula, pelo preço de 600 milréis.

Nov-dez 1879-planalto-batismos-Eduardo, nascido livre, filho de Benedicta, escrava de Francisco Teixeira de Freitas, Avenca.

13/10/1876 – Escravo Francisco, 11 anos de idade, de propriedade de José de Souza da Silva, vendido a Francisco Carvalho de Assis França, morador de Ambrózios, província Paraná, pelo preço de 500 mil réis.-Coletoria provincial de Joinville.

Antônio Carneiro de Paula e Francisco Teixeira de Freitas são nossos conhecidos, pois moravam na região de Campo Alegre e já sabíamos que os dois haviam sido proprietários de escravos. Não tínhamos, no entanto, o nome das escravas Rosa e Benedicta. Francisco Carvalho de Assis França é provavelmente o mesmo Francisco Carvalho de Assis que também temos como proprietário em São Miguel, Campo Alegre. Permanece uma dúvida por desconhecermos a origem do sobrenome França. Caso seja o mesmo, teremos então 18 escravos conhecidos.

Ressaltamos que o fenômeno não estava restrito a Campo Alegre: Thomas Umbelino Teixeira tinha um escravo no Mato Preto e Francisco de Paula Pereira tinha ao menos três ao longo da Estrada Dona Francisca, em São Bento.

Do Kolonie Zeitung, Brigitte acrescentou ainda o seguinte registro de batismo, informado pelo Pe. Karl Boegershausen e que não está nos livros de São Bento:

83-Manoel Vaz de Siqueira

Janeiro-1876-Batismo-Thomas, filho nascido livre de Luciana, escrava de Manoel Vaz de Siqueira, Distrito de S.Bento.

A escrava Luciana também já era nossa conhecida. Não tínhamos, apesar disso, o nome do seu filho Thomas, já nascido livre, e que vem contribuir para melhor ilustrar a vida dessa personagem. Aos poucos tentarei detalhar aqui o que for possível sobre cada escravo e seus proprietários.

Com as novidades, a lista completa ficou a seguinte:

Antônio Carneiro de Paula: Rita, Rosa

Antônio Ferreira de Lima: Josefa Gonçalves de Araújo

Francisco Carvalho de Assis: Mariana, Francisco (provável)

Francisco de Paula Pereira: Gertrudes, Izá, Romão Frutuoso.

Francisco Teixeira de Freitas: Raphael, Benedicta

José Affonso Ayres Cubas: Catharina

Manoel Ignácio de Sousa: Bárbara, Balbina

Manoel Vaz de Siqueira: Luciana

Maria Joaquina do Nascimento: Josefa, Paula Ferreira e provavelmente Ascência

Thomas Umbelino Teixeira: Francisco

Leia mais:

Escravos em São Bento e Campo Alegre III

Escravos em São Bento e Campo Alegre II

Escravos em São Bento e Campo Alegre

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Descobri recentemente que o brasão de Campo Alegre homenageia os cinco, supostamente, pioneiros do lugar. Quando Campo Alegre começou a ser ocupada, provavelmente perto de 1870, ainda não havia sequer a cidade de São Bento, a qual ela pertenceria até se emancipar em 1897.

Como tenho pesquisado as primeiras famílias brasileiras de São Bento, e que são também as de Campo Alegre, me interessei em descobrir a quem a Prefeitura Municipal havia resolvido homenagear com o título de “pioneiro” da cidade. Foram citados os seguintes:

Francisco Bueno Franco, José Affonso Ayres Cubas, Raymundo Munhoz, Bento Martiniano de Amorim e Francisco Teixeira de Freitas.

A escolha desses nomes é muito curiosa, e no mínimo equivocada, pra não dizer preconceituosa, já que privilegia apenas as pessoas que ocuparam cargos públicos de destaque na cidade.

Todas as pessoas citadas estiveram, de fato, em Campo Alegre nos seus primeiros anos. Francisco Bueno Franco foi o próprio prefeito da cidade quando da sua instalação. Não é possível precisar uma data para a sua chegada, nem a dos demais. Imagine-se, sem qualquer respaldo documental ainda, que fosse parente do Brigadeiro Manoel de Oliveira Franco, a quem pertenciam as terras que hoje são parte de Campo Alegre. Assim sendo, é possível que a família de Bueno Franco tenha estado entre as primeiras do lugar, ainda que em 1870 seu pai apareça em registros da Lapa.

Naturalmente, ainda que isso seja verdade, Francisco Bueno Franco não veio sozinho para a região, pois mal contava com 20 anos de idade. Seu pai, Florentino Bueno Gomes, foi quem deve ter trazido toda a família – com vários membros que também poderiam ser considerados fundadores, caso tivessem uma vida pública tão destacada quanto a de Francisco. É difícil imaginar a vinda dos Bueno Franco sem a vinda de Amâncio Alves Correia, tio de Francisco Bueno, e que, apesar de ter ocupado cargos de destaque na época, acabou esquecido pela história.

José Affonso Ayres Cubas é o ancestral de todos com esse sobrenome na região. A própria tradição do sobrenome deve ter sido um critério na hora de escolher um pioneiro. “É preciso que haja um Cubas”, devem ter pensado. José Affonso foi grande fazendeiro em Campo Alegre, tendo inclusive alguns escravos. Consta que teria algumas patentes militares. Em outubro de 1871, ainda aparece batizando uma filha em São José dos Pinhais – não significa que estivesse morando lá. Começa a aparecer nos livros de São Bento do Sul em 1877. Certamente esteve entre as várias famílias que vieram nos primeiros anos de Campo Alegre, mas é impossível precisar a sua chegada.

 O caso de Raymundo Munhoz é mais curioso. Assim como os Cubas, era inadmissível que não houvesse um Munhoz entre os pioneiros. No entanto, escolheram a pessoa errada. Isso porque Raymundo José Munhoz só nasceu em São José dos Pinhais no ano de 1865 – imagino que não é muito adequado chamar de fundador alguém que chegou na região durante a infância. Seu pai, Manoel José Munhoz, talvez tenha estado na cidade, mas não foram encontrados, ainda, registros disso. Mas seu tio, Cândido José Munhoz, não só esteve como parece ter ocupado alguns cargos de destaque, como o de Juiz de Paz. Logo, seguindo a lógica, seu nome parecia mais indicado.

Bento Martiniano de Amorim ainda não teve suas origens familiares desvendadas, mas muito dificilmente estaria em Campo Alegre nos primeiros anos de povoação – a não ser que fosse criança. Seu nome aparece com frequência nos registros de cartório da cidade nos anos de 1890, quando parece ter tido destaque na vida pública, o que culminaria com sua conquista do cargo de prefeito de Campo Alegre em 1902 – uma boa razão, parece, para achar que foi pioneiro.

Francisco Teixeira de Freitas estava, de fato, numa das primeiras levas de paranaenses que povoaram Campo Alegre. Coincidentemente, também ocupou cargos públicos em São Bento do Sul e região. Era grande fazendeiro, e também possuía escravos. Parece inadmissível, no entanto, imaginar a vinda de sua família sem a vinda dos irmãos Souza – que se casaram com quatro das filhas de Francisco Teixeira de Freitas.

Da mesma forma, seria possível listar uma centena de famílias que aparecem morando em Campo Alegre antes de 1880 e que poderiam ser classificadas como “pioneiras”. É curioso que não tenham pensado em algum Fragoso, Carneiro, ou Preto para homenagear também – talvez porque, estes, não ocuparam cargos de evidência.

A lista de pioneiros apontada no brasão de Campo Alegre é inexata, imprecisa, injusta, e diz muito pouco a respeito da história da cidade.

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Existem algumas referências históricas dizendo que em São Bento do Sul não houve escravos. Venho tentando há algum tempo mostrar que, embora não morassem na região central da cidade, habitada por imigrantes, é possível dizer que a cidade contou com a presença de escravos. A maior parte deles, habitava regiões mais afastadas,e geralmente pertencente a Campo Alegre. Houve, no entanto, proprietários que moravam em regiões ainda hoje pertencentes a São Bento, como Mato Preto e a Estrada Dona Francisca.

E ainda que esses escravos não tenham morado no núcleo central da cidade, houve caso de proprietários que desempenharam papel importante na vida pública de São Bento do Sul – e não de Campo Alegre. Foi o que aconteceu com Francisco de Paula Pereira e Francisco Teixeira de Freitas, figuras de destacada atuação na incipiente política de São Bento. Thomas Umbelino Teixeira, outro proprietário de escravo, foi ainda figura participante do movimento republicano que se destacou na cidade.

Recentemente, o historiador José Kormann parece ter reconhecido a presença desses escravos na região de Campo Alegre, afirmando que eram quatro ao total. Mas uma consulta ao livro “Famílias Tradicionais”, compilação de Paulo Henrique Jürgensen dos primeiros registros eclesiásticos de São Bento, é suficiente para ver que eram muito mais do que quatro os escravos na região

Abaixo, discrimino um a um os proprietários e escravos que são conhecidos – não representam todos, mas aqueles que deixaram rastros em documentos:

Antônio Carneiro de Paula: Rita

Antônio Ferreira de Lima: Josefa Gonçalves de Araújo

Francisco Carvalho de Assis: Mariana

Francisco de Paula Pereira: Gertrudes, Izá, Romão Frutuoso.

Francisco Teixeira de Freitas: Raphael

José Affonso Ayres Cubas: Catharina

Manoel Ignácio de Sousa: Bárbara, Balbina

Manoel Vaz de Siqueira: Luciana

Maria Joaquina do Nascimento: Josefa, Paula Ferreira e provavelmente Ascência

Thomas Umbelino Teixeira: Francisco

A predominância é de mulheres, isso porque os registros de batismo ou casamento não informavam o nome do pai – já que o filho de escravos que não se casaram diante da Igreja era entendido como ilegítimo e, portanto, só a mãe deveria ser mencionada. Disso se conclui que o número de escravos era ainda maior do que a quantidade que foi possível aferir. Também é bem possível que tenham existidos outros, mulheres ou não, que estiveram na região sem aparecer em registros.

Um caso peculiar é a escrava Rita, propriedade de Antônio Carneiro de Paula, que foi trazida a São Bento para ser cuidada pelo médico Felippe Maria Wolff mas, não resistindo, veio a falecer e foi sepultado no mesmo cemitério que os imigrantes pioneiros na colonização de São Bento. Isso mostra que, embora a presença de escravos não estivesse diretamente relacionada aos imigrantes de São Bento, o fenômeno estava presente e merece ser estudado para melhor compreensão das relações sociais da região.

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O nome da localidade de Fragosos, naturalmente, tem sua explicação na pioneira ocupação da região por membros da família Fragoso. Essa família vinha de São José dos Pinhais e da Lapa. Mais remotamente, suas origens apontam para a cidade de Curitiba e, de lá, para Taubaté, no interior paulista. Os Fragosos também possuem ancestrais indígenas – carijós que foram aprisionados pelos primeiros curitibanos.

Os membros da família Fragoso que primeiro chegaram à região eram filhos e netos de Manoel Soares Fragoso, natural de Curitiba, onde se casou com Marciana Maria de Marafigo, do mesmo lugar, com quem se mudou para São José dos Pinhais e, mais tarde, para a Lapa. Foram seus filhos:

1. Francisca Soares. Nasceu em 1827 na cidade de Curitiba. Casou-se na Lapa por volta de 1844 com Hermenegildo Rodrigues de Oliveira, com quem teve, entre outros, o filho Generoso Fragoso de Oliveira, tido pela tradição oral como primeiro morador de Fragosos, conforme já tratamos aqui. Viúva, casou-se em 1854 com José dos Santos Machado. Não há evidências de que esteve em Fragosos, mas seus filhos dos dois casamentos lá estavam.

2. Virgínio Soares Fragoso, nascido em São José dos Pinhais no ano de 1829. Em São Bento do Sul, casou-se pela terceira vez, no ano de 1889, com Francisca Pereira de Oliveira. Comprovadamente, esteve em Fragosos.

3. José Soares Fragoso, nascido em Campo Largo no ano de 1831. Também morou na região de Fragosos, onde deixou descendência, entre eles o temido João Elias Fragoso, acusado de ser o executor dos assassinatos de João Filgueiras de Camargo e Alberto Malschitzky.

4. Pedro Soares Fragoso, morador de São José dos Pinhais, tendo depois migrado para Fragosos, conforme se depreende do seu registro de óbito. Seus descendentes se uniram às famílias Rocha e Machado.

5. Maria da Rosa Soares, nascida na Lapa em 1836. Tudo leva a crer que não esteve em Fragosos, mas que, casada com Antônio José Mariano da Silva, continuou morando na cidade da Lapa, onde deixou a sua descendência.

6. Joana Soares Fragoso. Casou-se com Antônio Rodrigues de Almeida. Não podemos afirmar que o casal, propriamente, esteve em Fragosos, mas seus descendentes sim. O filho Lino Rodrigues de Almeida chegou a assumir o cargo de vereador em São Bento.

7. João Baptista Fragoso. Nascido na Lapa, também se mudou para Fragosos. É ancestral de todos os numerosos Baptista Fragosos que, até os nossos dias, ocupam a região.

8. Felippe Soares Fragoso, nascido na Lapa em 1846. Tudo indica que continuou morando na região. Deixou descendentes que moraram em Fragosos, como a filha Joaquina Fragoso Cavalheiro, casada com um filho de Generoso Fragoso, e Francelina Fragoso Cavalheiro, sogra de Antônio Kaesemodel. Na sua maioria, os Cavalheiro da região são descendentes seus e de sua primeira esposa Flora Lina Cavalheiro.

Desses filhos de Manoel Soares Fragoso descendem, ao que nos consta, todos os Fragosos que hoje habitam a localidade. Houve membros da família Fragoso de outros ramos, conectados apenas em Curitiba, mas que chegaram à região de São Bento do Sul por outras frentes.

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Em Fragosos, há um certo tom de respeito quando se fala sobre Generoso Fragoso. “Ele foi o fundador de Fragosos”, comenta-se. Fragosos não é exatamente um lugar que possa ser fundado – é uma curiosa localidade que pertence a Campo Alegre, que gostaria de fazer parte de São Bento, e que seria mais lógico se fizesse parte de Piên. A “fundação de Fragosos” corresponde a sua pioneira ocupação, que não foi feita por um único indivíduo – e, mesmo se fosse, provavelmente não teria sido Generoso Fragoso, que aparentemente ainda estava no Paraná quando a região já era ocupada.

Generoso Fragoso era negociante – de quê, ainda não se sabe. De alguma forma, conseguiu prestígio na região de Fragosos, integrando um círculo de relacionamentos que incluía personagens proeminentes da região, como o líder republicano João Filgueiras de Camargo, um parente de sua esposa, e Francisco Bueno Franco, primeiro prefeito de São Bento e depois de Campo Alegre. Esse envolvimento como líderes locais, o possível sucesso em seu negócio, e a sua relativa longevidade no local, considerando sua precoce ocupação, parecem ser os fatores que explicam a “fama” atribuída a Generoso Fragoso.

De Oliveira. Esse é o complemento de seu nome, hoje totalmente esquecido, inclusive na rua que lhe serve de homenagem. Vem de seu pai, que não era Fragoso, mas Hermenegildo Rodrigues de Oliveira. Seu pai, por sua vez, não era Oliveira de sangue, mas por adoção. O pequeno Hermenegildo resolveu vir ao mundo em abril de 1823, na Lapa, mas não parece ter sido em boa hora. Seus misteriosos pais abandonaram a criança à porta da família de Antônio Preto de Oliveira e Benedita Rodrigues. Lá, Hermenegildo cresceu em meio a outras crianças de sua idade, filhas legítimas do casal, e passou a adotar o mesmo sobrenome que eles.

Quando cresceu, Hermenegildo conheceu Francisca Soares Fragoso, e com ela se casou por volta de 1844. No ano seguinte, mais precisamente em 25 de maio, Generoso nasceu na cidade da Lapa. Além dele, o casal teve duas filhas, chamadas Celestina Maria Rodrigues e Maria dos Anjos. A vida que não começara fácil tampouco acabou bem para Hermenegildo, que faleceu aos 27 anos no dia 07.08.1850 – de causa desconhecida, embora se saiba que não foi doença, já que seu registro indica “morte apressada”, razão pela qual não recebeu os tradicionais sacramentos.

Assim, Generoso cedo ficou órfão de pai. Sua mãe voltou a se casar em 23.02.1854, também na Lapa, com João dos Santos Machado. Com ela teve filhos que também iriam ocupar a região de Fragosos na década de 1870, embora nenhum deles levasse o “Fragoso” no nome. A família de Francisca Soares possuía parentes na cidade de São José dos Pinhais, e é exatamente nesse local que Generoso Fragoso veio a se casar, no dia 12.05.1866.

Sua esposa chamava-se Leopoldina Maria de Almeida, de pouco mais de 16 anos. Com ela, teve, pelo que se conhece, os filhos Saturnino Fragoso de Oliveira, falecido um ano antes do pai, Valêncio Soares Fragoso, Gregório Rodrigues Fragoso, Joaquim Rodrigues Fragoso, Ernesto Crescêncio Fragoso, e um filho chamado Pedro, do qual se desconhece o destino. Generoso teve a chance de conhecer vários de seus netos, pois alcançou os 79 anos, tendo falecido em 25.06.1924. Está sepultado no Cemitério de Fragosos.

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Como eu tive oportunidade de lembrar em um artigo neste blog, o fenômeno da escravidão esteve presente também na região de São Bento e Campo Alegre. Algumas das principais autoridades municipais de São Bento – todos brasileiros – mantinham alguns escravos em suas propriedades em Campo Alegre e proximidades. Através de consultas em livros eclesiásticos e cartorários, é possível descobrir quem eram esses proprietários, assim como o nome e mais alguns detalhes da vida dos escravos que por eles eram mantidos.

O registro a seguir encontra-se no primeiro livro de casamentos do cartório do registro civil de São Bento do Sul. Ambos os noivos são filhos de ex-escravos – pois o casamento aconteceu após a abolição. De forma resumida, o registro diz o seguinte:

Aos 26 dias de fevereiro de 1889, na casa de José Affonso Ayres Cubas, no Jararaca, por ocasião de missa que lá se realizava, casaram-se Benedicto Alves Pires, de 30 anos, natural de São José dos Pinhais, filho natural de Assencia, ex-escrava, com Maria Ferreira de Paula, de 22 anos, filha natural de Paula Ferreira, também ex-escrava da finada Maria Joaquina do Nascimento. Serviram de testemunhas Pedro Alves Machado, de 56 anos, e Joaquim Ferreira de Lima, de mais ou menos 45 anos, ambos moradores no mesmo distrito de São Bento.

Nota-se que fazia pouco mais de quatro meses desde que a princesa Isabel promulgou a Lei Áurea, mas que a antiga condição social continuava sendo usada para qualificar personagens. Como em geral os escravos não eram pessoas legitimamente casadas perante a Igreja Católica, seus filhos eram tidos sempre como “naturais”, impedindo que o nome do pai seja conhecido depois de tantas gerações. É por isso que a maioria dos nomes de escravos que conhecemos na região de São Bento e Campo Alegre são de mulheres.

Entre elas, as antigas escravas Assencia (talvez Ascença) e Paula Ferreira. Sobre a primeira, não há no registro informação direta de quem fosse o seu proprietário. Ao falar de Paula, o escrivão utiliza um “também” que tanto pode se referir à condição de ex-escrava como à propriedade da falecida Maria Joaquina do Nascimento – o que nos parece mais provável.

Se assim for, e os noivos forem filhos de mães que eram propriedades da mesma mulher, o casamento evidencia a continuidade de relações entre essas pessoas mesmo após a abolição.  O nome das testemunhas de casamento serve como pistas para a identificação familiar dos personagens citados nesse registro. A coincidência de sobrenomes entre eles e os noivos leva-nos a cogitar que fizessem parte do mesmo núcleo de relacionamento – isso talvez possa nos levar até o nome de seus pais, desde que novos documentos sejam cruzados.

E quem era essa senhora que possuía escravos? Maria Joaquina do Nascimento foi casada com Joaquim Antônio Alves, filho de Joaquim Alves Fontes e Maria dos Anjos. Os Alves Fontes foram uma família abastada em São José dos Pinhais, e há várias gerações dispunham de serviço escravo. Provavelmente, o esposo faleceu e então Maria Joaquina tomou posse dos escravos que a ele pertenciam. Além de Paula Ferreira e provavelmente de Assencia, sabemos que ela também possuía a escrava Josefa, que batiza um filho em São Bento no ano de 1882. Visivelmente, era uma família abastada.

José Affonso Ayres Cubas, na casa de quem se deu o casamento, também era proprietário de escravos – ao menos de uma, chamada Catharina, que teve um filho alguns meses antes da abolição. E possivelmente tenha tido mais, sem que deixassem rastro nos registros consultados até agora. O casamento aqui relatado é apenas uma pequena parte do fenômeno da escravidão na nossa região, um tema absolutamente esquecido por todos os historiadores locais, e que merece ser analisado e organizado de maneira a preencher lacunas no nosso conhecimento histórico.

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Ninguém diria, mas um Papa de Roma faleceu na rústica Avenquinha, interior de Campo Alegre:

Às 14h do dia 21.11.1890, em Avenquinha, faleceu Silvestre Papa de Roma, aos 29 anos, natural de Morretes, filho de João Eduardo da Silva e de Vicência Maria de Jesus, ele natural de Santa Catarina e ela de São Francisco do Sul. O falecido era casado com Catharina Gonçalves, também de São Francisco do Sul.

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“São Bento no Passado” também é, por vezes, “Campo Alegre no Passado”. A história das duas cidades foi a mesma até o desmembramento de Campo Alegre, em 1897, apesar da distância que as separava e das diferentes etnias de seus moradores – ao invés de imigrantes, Campo Alegre era habitada por paranaenses de São José dos Pinhais e da Lapa. Vários desses brasileiros estiveram entre as primeiras autoridades nomeadas para São Bento do Sul – os imigrantes, em geral, se demonstravam desinteressados pela política. E as duas cidades se relacionavam de diferentes formas, inclusive comerciais e culturais. Parece certo que para uma compreensão mais ampla da história local é preciso levar em conta as interações entre os grupos que habitavam São Bento do Sul e Campo Alegre.

A historiografia são-bentense, no entanto, não costuma entender os paranaenses de Campo Alegre como uma parte importante de sua história. As raras exceções em que são mencionados se resumem, naturalmente, às suas atuações políticas e ao conflitos de terra – geralmente, se posicionando a favor da causa imigrante, a ponto dos brasileiros serem vistos como simples intrusos (quando não arruaceiros). A historiografia de Campo Alegre (mais reduzida, e admito não conhecê-la tão bem), embora considere a interação com São Bento do Sul, parece não ter ainda esmiuçado de verdade o seu próprio passado. Falta, parece, uma obra com a densidade e a fidelidade documental que Ficker buscou no seu livro sobre São Bento. Hoje, praticamente todos os brasileiros pioneiros na ocupação da cidade, e os feitos a ele atribuídos, já estão totalmente esquecidos. E o desconhecimento da história faz com que ela seja preenchidade maneira equivocada. Assim é que sites de turismos dão conta de que Campo Alegre foi colonizada por espanhóis, portugueses, alemães e poloneses. Seus pioneiros, realmente, até tinham ascendência portuguesa e espanhola, mas já estavam no Brasil há  dois  ou mais séculos. Se houve colonização (palavra que parece exigir uma qualificação européia) ela foi, principalmente, brasileira.

Assim, creio que as novas descobertas sobre o passado da cidade e de seus personagens devem ser comemoradas e divulgadas. E há tanta coisa para ser descoberta! Isso inclui São Bento do Sul, já que muitos aspectos de sua história ainda não foram devidamente explorados, e podem aumentar consideravalmente a compreensão que se tem do nosso passado (atualmente bastante maltratado por um historiador de status). A cidade de Joinville ainda esconde, em jornais e documentos, aspectos interessantíssimos dessa história, e que ainda permanecem inéditos. São fontes preciosas até pela própria antiguidade das informações. Representam o início da história das duas cidades.

As cidades do norte catarinense contam com um número de pesquisadores que, embora sejam poucos, estão realmente dispostos a colaborar uns com os outros, e dessa maneira a tendência é o crescimento da historiografia regional e o seu aperfeiçoamento, cada vez mais embasado em fontes documentais – sempre levando em conta a oralidade, mas esclarecendo quando se trata dela. Isso tem permitido o aumento do número de informações sobre o passado de Campo Alegre. Aos poucos, em novos posts, tentarei falar um pouco mais sobre os primeiros campoalegrenses – na época em que ser campoalegrense era o mesmo que ser sãobentense.

PS: São-bentense se escreve com ou sem hífen?

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Albert Malschitzky era o presidente da Câmara Municipal de São Bento naquele turbulento ano de 1897. A agitação política tomava conta da cidade que, em maio, assistiu perplexa ao assassinato do comerciante e lider republicano João Filgueiras de Camargo. Malschitzky, na sua qualidade de Presidente de Câmara, considerou reprováveis algumas atitudes que o Capitão Joaquim da Silva Dias estava tendo enquanto Promotor Público de Campo Alegre. Decidiu então mandar um telegrama pedindo a sua exoneração do cargo, “a bem da ordem e da moralidade”. Essa teria sido a principal causa de seu assassinato, e ele poderia ter sido apenas o primeiro de uma série de surras e mortes que, segundo testemunhas, culminariam na tomada do poder pelo dito Capitão Joaquim da Silva Dias.

O assunto não foi, ainda, devidamente explorado pela historiografia local. Tenho consultado edições antigas do jornal Legalidade, e fico admirado com as notícias referentes aos acontecimentos daquela época. Um clima de medo dominava a cidade, a julgar pelas expressões do jornal.  Descoberto o principal suspeito, a indignação dava o tom do periódico. As acusações recaíam sobre gente graúda da região – o prefeito de Campo Alegre, Francisco Bueno Franco, era acusado de ser o braço-direito de Joaquim da Silva Dias. Encontrei até mesmo uma acusação contra meu tetravô Generoso Fragoso de Oliveira – segundo uma testemunha, Joaquim e seus homens se reuniam na casa de Generoso, em Fragosos. Os depoimentos das testemunhas, citados pelo jornal, também são bastante ricos em detalhes.

Comecei há algum tempo a escrever sobre esse assassinato, utilizando, para isso, técnicas do jornalismo literário. Esse é o primeiro capítulo da história:

Entre sete e oito horas daquele sábado, dia 21 de agosto de 1897, o cachorro de Georg Dums, imigrante de Hammern e morador da Estrada Dona Francisca, foi atingido por uma pedrada. Ninguém soube dizer quem havia sido o autor. A agressão deixou o animal muito machucado. “Não conseguiu andar por uma semana”, lamentou Dums. Era um cão “bravio e valente”, segundo o vizinho Carlos Körner. Quando algum estranho se aproximava da vizinhança, era sempre o primeiro a latir – latia antes que os cachorros de Alberto Malschitzky, também morador da Estrada Dona Francisca. E foram essas circunstâncias que chamaram a atenção de Dums e Körner no momento em que tiveram de depor.

Georg Dums já havia se recolhido ao seus aposentos na noite da quarta-feira seguinte, dia 25 de agosto. Era por volta de oito e meia da noite quando, subitamente, ouviu um barulho que parecia ser de dois tiros. Intrigado, debateu com a esposa sobre o que poderia ter sido aquilo. Decidiu então se levantar e verificar pessoalmente. Mal abriu a porta de casa, voltada para a rua, e encontrou o mesmo Körner, seu vizinho. Estava exaltado, e falou com rapidez:

– O Malschitzky… recebeu dois tiros e está quase morto!

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É sabido que o nome  do bairro “Fragosos”, hoje pertencente ao município de Campo Alegre, tem sua razão de ser na pioneira presença de membros da família Fragoso na região. Além de terem sido os primeiros a habitar o lugar, os membros dessa família, vindos da Lapa e de São José dos Pinhais, representavam um bom contingente de pessoas, o que também colaborou para que o local fosse conhecido pelo sobrenome de seus moradores. Os criadores e lavradores do lugar, naquele tempo, eram sempre tratados como “moradores nos Fragosos” – e não “em Fragosos”, como nos nossos dias.

Os membros dessa família, portanto, passaram a se tornar a referência para os habitantes do lugar. Esse não é o único caso nos primórdios de São Bento do Sul e Campo Alegre: havia quem morasse na “Avenca dos Teixeira” ou ainda “nos Carneiros”. De qualquer forma, o único nome familiar que permaneceu até os nossos dias como identificador de uma localidade foi o de Fragosos – nome que hoje é pronunciado com a vogal “o” aberta, ao contrário do que acontece com o sobrenome.

A história contada pelos descendentes dos primeiros Fragoso diz que a família possuía muitas terras e prestígio nas redondezas. Também é comum ouvir (não só de descendentes, mas também de moradores) que o primeiro habitante do lugar foi Generoso Fragoso. Foi também isso que ouvi da minha avó Otília Fragoso, bisneta de Generoso. Não existem registros que nos deem  certeza sobre a época em que Generoso Fragoso chegou à região e quem o acompanhou – e também se houve outros Fragoso habitando o local antes dele. Convém enunciar algumas discussões.

O nome completo de Generoso também se perdeu com o passar dos anos: chamava-se Generoso Fragoso de Oliveira. Natural da Lapa, onde nasceu em 25.05.1845, era filho de Ermenegildo Rodrigues de Oliveira (que levou uma vida marcada por acontecimentos inditosos: foi abandonado ao nascer e morreu precocemente aos 27 anos) e sua esposa Francisca Soares, a qual era filha de Manoel Soares Fragoso e Marciana Maria de Marafigo. O nome “Fragoso” que Generoso portava vinha, assim, de seus ascendentes maternos, enquanto que o esquecido complemento “de Oliveira” vinha do pai, que o adotou por ser um dos sobrenomes da família que lhe acolheu ao nascer.

Antes de chegar à região de São Bento do Sul, Generoso se mudou para São José dos Pinhais, onde, em 12.05.1866, se casou com Leopoldina Maria de Almeida, filha de Joaquim Rodrigues de Almeida, de Lages, e Maria Calisto, de São José dos Pinhais. Foi com Leopoldina que Generoso passou a habitar a região posteriormente conhecida como Fragosos. O casal já tinha ao menos o filho Pedro, batizado em 20.02.1870 em São José dos Pinhais – ou seja, acredita-se que a mudança tenha sido posterior à essa data.

O pioneirismo de Generoso Fragoso encontra alguma resistência para ser aceito quando encontramos o registro de batismo de Gregório, um de seus filhos, em Araucária no dia 08.05.1875. Ora, essa data é posterior àquela que usualmente se defende como a ocupação da região por elementos nacionais. Sabe-se que um dos tropeiros que ajudou os primeiros imigrantes a subir a serra com destino a São Bento, em setembro de 1873, se chamava João Fragoso (ainda não encaixado na genealogia familiar). Ou seja, havia membros da família Fragoso na região de São Bento do Sul antes da data em que encontramos Generoso Fragoso em território paranaense. Não é impossível, no entanto, que Generoso já estivesse em Fragosos na época, mesmo tendo batizado um filho em Araucária – mas existe, nesse ponto, uma dificuldade que precisa ser analisada antes de se chegar a alguma conclusão. Também não é possível afirmar que o tropeiro João Fragoso morava na mesma região de Fragosos – ou seja, a sua simples presença em São Bento do Sul não impede que Generoso tenha chegado antes ao lugar em que passou a morar.

Além de Generoso Fragoso, passaram a morar no lugar, em data incerta, alguns dos seus tios, irmãos da sua mãe Francisca Soares (existem registros de ao menos Virgínio Soares Fragoso, Pedro Soares Fragoso, João Baptista Fragoso, Felippe Soares Fragoso e Miguel Baptista Fragoso, todos filhos de Manoel Soares Fragoso, falecido ainda na Lapa). Também é possível que se deva a esses irmãos o início da povoação do lugar, em alguma migração coletiva da qual Generoso poderia estar presente, mas que, por ter conseguido algum prestígio social[1], teria sido ele o nome que se sobressaiu ao longo dos anos e entrou para a história como o fundador. Embora não seja possível chegar a uma conclusão, a discussão mostra uma primeira tentativa de comprovar documentalmente algumas das histórias da tradição oral em Fragosos.

Generoso Fragoso de Oliveira está sepultado no Cemitério de Fragoso. Faleceu no dia 25.06.1924, aos 79 anos. Essas discussões preliminares podem ser revistas conforme novas descobertas forem surgindo. Elas representam, no entanto, a tentativa de melhor compreender um local especial para quem é descendente da família Fragoso – e até hoje, a região de Fragosos conta com um grande número de descendentes de Generoso e de seus tios.


[1] Sabemos que Generoso Fragoso de Oliveira tinha certo prestígio no meio em que vivia. Consta que algumas reuniões envolvendo personalidades políticas de Campo Alegre teriam acontecido em sua casa. Há vários registros de compadrio que envolvem o nome de Generoso e figuras de destacada atuação na vida pública da região, como o líder republicano João Filgueiras de Camargo. Saturnino Fragoso de Oliveira, filho de Generoso, teve como padrinho de casamento Francisco Bueno Franco, outra personalidade evidenciada na história política de São Bento do Sul e Campo Alegre.

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 Artigo publicado no jornal A Gazeta, de 23 de setembro de 2008

 

Os imigrantes que chegaram há 135 anos em São Bento do Sul, vindos de regiões germânicas e polonesas, construíram uma história que é, merecidamente, sempre lembrada pelos historiadores. Mas além deles, há de se considerar também a presença de “brasileiros” na região. Eram paranaenses vindos de São José dos Pinhais e da Lapa. Algumas dessas famílias moravam na região desde o começo. Francisco Antônio Maximiano, por exemplo, apresentou um título de posse emitido no Paraná em 1872 para o lote que ocupava, e que também estava previsto para os imigrantes de São Bento.

As famílias nacionais não habitavam o núcleo central da cidade. Muitas moravam próximas à Estrada Dona Francisca, ou em bairros como Mato Preto, Fragosos, Avenquinha e Bateias – que pertenciam à São Bento. A distância não impediu que os dois grupos se relacionassem. Embora sempre se evidencie os conflitos de terras, o cronista Josef Zipperer, um dos primeiros imigrantes, relata importantes interações entre os grupos. Era dos brasileiros de Avencal, por exemplo, que os alemães recém-imigrados compravam (a prazo) os mantimentos que faltavam, como feijão, carne seca e farinha de milho.

Há vários casos em que as duas etnias mantinham laços de amizade. João Filgueiras de Camargo, que chegou a ser prefeito de São Bento, morava em uma casa construída em estilo germânico por carpinteiros alemães, em Fragosos. Também foram muitos os casos de brasileiros padrinhos de filhos de imigrantes, e vice-versa.

Os brasileiros também se destacaram na área política de São Bento, que não despertou muito interesse dos imigrantes. O primeiro prefeito da cidade, por exemplo, foi Francisco Bueno Franco, natural de São José dos Pinhais. A maioria dos primeiros cargos públicos foram ocupados por nacionais que moravam nas proximidades. Eles descendem das primeiras famílias de Curitiba e Paranaguá, as quais, por sua vez, descendem dos primeiros paulistas. Além dos citados, entre os primeiros nacionais destacaram-se Antônio dos Santos Siqueira, Thomas Umbelino Teixeira, Francisco Teixeira de Freitas, Amâncio Alves Correia, José Affonso Ayres Cubas, Cândido José Munhoz, Generoso Fragoso de Oliveira, e muitos outros, alguns com descendência na cidade até os nossos dias. Ao comemorar o aniversário de São Bento, convém lembrar também desses nomes que, junto com os imigrantes, fizeram parte da história da cidade em seus primórdios e ajudaram a contribuir para o seu desenvolvimento.

 

Henrique Luiz Fendrich

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Assinatura de meu trisavô Saturnino Fragoso de Oliveira em seu casamento com Joaquina Fragoso Cavalheiro, que assina logo abaixo, em Campo Alegre no dia 22.01.1895, às 10h.

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A senhora do meio é Barbara Pfeffer, casada com Anton Mühlbauer. A seu lado, suas filhas Catharina Mühlbauer, casada com Franz Hannusch, e Barbara Mühlbauer, casada com Johann Hannusch. Eram duas irmãs casadas com dois irmãos. Moravam na região de Fragosos, interior de Campo Alegre. Barbara veio com esposo e filhos ao Brasil em 1877.
Família Pfeffer
Andreas Pfeffer, que teria nascido por volta de 1580 em Stachesried, na Bavária. Pai de:

1. Andreas Pfeffer, nascido por volta de 1620 em Kleinagn. Teria se casado em 1645 com Anna. Tiveram:

1.1 Wolfgang Pfeffer, batizado em 01.01.1651 em Eschlkam. Seu padrinho foi Wolfgang Schwarz, fazendeiro em Schachten. Faleceu em 07.06.1709, também em Eschlkam. Casou-se com Walburga. Há dados que afirmam que ela faleceu em 1700 e um outro diz 24.01.1728. Era dona de casa. Wolfgang foi agricultor. Tiveram, entre outros:

1.1.1 Peter Pfeffer, nascido em 19.03.1689, provavelmente em Kleinagn, tendo como padrinho Peter Pongraz, fazendeiro em Grossaign. Faleceu em 27.10.1740 em Kleinagn. Era carpinteiro e também dono de uma taverna. Casou-se com Margareth Hauser, batizada em 23.07.1688, falecida em Kleinagn a 18.08.1756. Sua madrinha foi Margaretha Hartl, esposa de fazendeiro em Warzenried. Margarethe era filha do carpinteiro Georg Hauser e sua esposa Barbara. Peter e Margarethe se casaram em 04.03.1715, tendo como testemunhas Wolf Fenzel e Wolf Hauser. Pais de, entre outros:

1.1.1.1 Josef Pfeffer, nascido em 03.12.1727. Seu padrinho eram Adam Stoiber, ferreiro em Kleinagn. Teria se casado com Anna Hoffmann. Casado com Anna Maria Laurer em 22.11.1751. Em 20.06.1763, já viúvo, casa-se com Anna Hezenbauer, filha de Johann e Dorothea Hezenbauer. Josef Pfeffer também cuidava da taverna. Com Anna Maria Laurer, teve, entre outros:

1.1.1.1.1 Josef Pfeffer, que se casou em 22.11.1790 com Anna Hastreiter. Com ela teve ao menos:

1.1.1.1.1.1 Georg Pfeffer, nascido em Kleinagn nº 16 no dia 11.11.1802. Casou-se em 11.06.1832 com Anna Singer, nascida em Kleinagn nº 17 em 24.05.1810. Entre seus filhos, tiveram:

1.1.1.1.1.1.1 Barbara Pfeffer, nascida em Kleinagn a 09.12.1838. Casou-se com o pedreiro Anton Mühlbauer, filho de Mathias e Klara Mühlbauer, no dia 03.10.1868. Com o esposo e filhos, imigraram para São Bento do Sul no ano de 1877 pelo navio Rio. Seu esposo Anton faleceu em São Bento do Sul a 02.12.1911. Barbara faleceu depois, com avançada idade.

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